Nos Correios, enquanto preenchia um daqueles papéis que a tecnologia já devia ter feito desaparecer, sinto o aproximar acelerado de uma senhora para o meu balcão, justamente quando eu estava quase a terminar de preencher um daqueles papéis que a tecnologia - não sei se já disse isto - já devia ter feito desaparecer.
A primeira coisa que me ocorreu foi "vaca", porque a verdade é que a senhora acabara de me roubar o lugar quando eu estava mesmo quase quase a terminar de preencher um daqueles papéis que a tecnologia - por pouco esquecia-me de vos dizer isto - já devia ter feito desaparecer.
Acabei então de preencher um daqueles papéis... - está bem, eu paro com isto - já não com tanta pressa porque entretanto tinha chegado a senhora. O próximo passo era então perceber o que vinha a senhora tratar aos correios; se vinha só mandar uma cartinha ou se vinha tratar de imensas coisas. Pelo menos não era um daqueles simpáticos cavalheiros que leva uma caixa cheia de cartas para enviar com aviso de recepção.
Ora, ponho-me naturalmente a ouvir a conversa, embora mesmo que não quisesse, teria de a ouvir na mesma, porque uma estação de correios não é propriamente um local discreto.
«Olhe, eu vinha aqui... isto até me dá vontade de rir» - disse a senhora, para meu ódio profundo, porque se adivinhava uma temporada só a explicar o que vinha ali fazer que até lhe dava vontade de rir. - «Eu venho do centro de saúde, porque me disseram que era aqui que eu pedia aquilo do...» - Começou a explicar-se ela, enquanto eu começava a pôr de lado o meu ódio e a relativizar as coisas, imaginando que a senhora podia estar a pedir aquilo do... - «É a prova de insuficiência económica, não é?» - Disse então o funcionário dos CTT, em alto e bom som, não fosse alguém estar a ouvir música. - «É isso mesmo.» - assumiu a senhora, rindo mais um bocado, naturalmente "do nervoso", e afirmando estar estupefacta por se tratar daquilo nos correios. - «Quando me disseram, nem estava a perceber.»
Nem eu estou a perceber. A imagem foi absolutamente degradante. Eu não tinha de saber que aquela senhora precisava de um atestado do senhor dos correios, que lhe pediu imediatamente o cartão do cidadão dela e das pessoas do agregado. A frieza do senhor dos correios nem comento porque admito que também seja uma defesa sua para aquele triste ofício. «Agregado não tenho. Sou só eu.» - respondeu a senhora, continuando com os mesmos curtos esgares de nervosismo, e acrescentando mais um pedaço de drama ao momento.
Até onde será que vamos recuar com esta filha da puta desta crise? O que poupa o Estado com estas cenas de pessoas a pedir nos correios para confirmarem a sua pobreza? Será que com toda a tecnologia que nós já pagámos para a tal "modernização", não é possível as Finanças identificarem logo as pessoas que estão em situação de insuficiência económica, enviando depois esses dados para os cartões, que uma vez lidos no Centro de Saúde piscam logo no computador da menina a preciosa informação "não cobrar taxas moderadoras"?
A crise é grande e há muito que fazer para a ultrapassarmos, mas não é preciso recuarmos nos mais elementares critérios de dignidade humana, porque ela, feitas as contas, até pode ser economicamente mais vantajosa. Proteger as pessoas pode sair mais barato que atirá-las para a pilha de pobres que se avoluma na praça central, para todos verem. Não há nada mais caro que uma sociedade espezinhada.
E eu nem quero imaginar que esta chancela de insuficiência económica passada pelos CTT possa ter saído da cabeça de um desses cabrões pagos para concluírem que a necessidade de ir aos correios afasta muitas pessoas desse pedido, justamente por causa da vergonha, e que assim se poupam uns dinheiros. Neste caso, a quem pensou nisto e a quem decidiu, gostava de oferecer dois bilhetes para o próximo cruzeiro do comandante Schettino.