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Lóbi do Chá

Lóbi do Chá

Ai não tem maneiras, não

por Zé Pedro Silva, em 31.01.13

Fernando Ulrich tem razão. É evidente que os portugueses, os gregos e os sportinguistas aguentam muito mais. No limite, se tivermos animais para caçar e um curso de água próximo, nós até nem precisamos de mais nada para viver. É bem verdade. Ulrich tem razão. Então o que é que Fernando Ulrich não tem?

 

Maneiras. O presidente do BPI não tem maneiras, pese embora o invejável pedigree.

 

Pois o que não se aguenta é ouvir o presidente de um banco, durante a apresentação de resultados, a dizer "ai aguenta, ai aguenta" ou "se os gregos aguentam nós também aguentamos" ou ainda "se um sem abrigo aguenta nós também aguentamos". Não se aguenta esta conversa, sobretudo perante uma crise em que a responsabilidade dos bancos é indelével.

 

Não se aguenta, também, este estilo snobe e superior dos banqueiros, nem o adágio "vão-se os anéis ficam os dedos" que invocam regularmente mas sempre para os outros, pois os seus dedos nunca deixam de brilhar, curiosamente graças ao dinheiro dos outros. 

 

Ulrich sabe bem que nunca vai parar à miséria, a menos que se meta no jogo ou na droga e o Artur Santos Silva jamais permitiria que isso acontecesse. Ulrich terá com certeza dinheiro. Terá investimentos. Terá francos suíços e coroas suecas. Por isso, quando sugere a hipótese de se tornar sem abrigo - em conversa com um jornalista - está só a ser ordinário. Que ele aguentaria, toda a gente sabe que sim, porque ele é um animal como os outros, mas a distância a que ele está dessa miséria é inversamente proporcional à da maioria dos portugueses e portanto, se tivesse maneiras, não dizia estas coisas.

 

Porque, repito, todo o mundo sabe que o povo "ai aguenta, aguenta", mas há coisas que não se dizem. Por exemplo, "nas últimas 72 horas, o Fernando Ulrich defecou pelo menos uma vez". Como se pode verificar, eu não disse nenhuma mentira. E até posso ser mais incisivo: Ai defecou, defecou! Mas lá está, não é bonito dizê-lo. E por isso não se diz.

A esquerda não quer serviço público de tv

por Zé Pedro Silva, em 31.01.13

A ideia da maioria PSD/CDS de meter o TV Rural de novo no ar é, de facto, estúpida. Mas a oposição, como é costume, consegue ser ainda mais parva ao dizer que o Parlamento não tem competência para propor estas coisas ao Governo, nem para fazer as grelhas da RTP. Desde logo, não se trata de fazer as grelhas, trata-se de propor um programa. E depois, a RTP é uma televisão pública, do Estado, afinal de contas para quê? É só para dar emprego? Então o Parlamento não pode exigir ao Governo a transmissão de um programa de serviço público?

 

Salvo melhor opinião, este é o melhor argumento para a privatização do canal. Na ânsia de contrariar por contrariar, a esquerda acabou a justificar, como a direita nunca conseguiu, a privatização do canal público. E perderam assim uma excelente oportunidade para dizer "estão a ver como é preciso um canal público...", entalando à antiga a maioria.

Seguro no PS, Passos em São Bento

por Zé Pedro Silva, em 30.01.13

António José Seguro conseguiu provar aquilo que não era preciso provar. É um líder da oposição fraquíssimo, mas é um líder do partido fortíssimo. Ao Governo deixa passar tudo, no partido não deixa que se passe nada. Em frente ao primeiro-ministro usa palavras moles e gestos singelos, em frente aos camaradas dá murros na mesa.

 

Se António José Seguro fosse metade a liderar a oposição no Parlamento do que foi a liderar a oposição interna, Passos Coelho tinha problemas. Mas os políticos que só têm talento para o jogo partidário não incomodam governo algum porque acabam por ter de estar sempre à espreita, a debelar as legítimas expectativas dos militantes mais inconformados.

 

O reforço da liderança de António José Seguro, com este episódio da candidatura de António Costa que depois de o ser já o não era, foi o melhor que aconteceu ao Governo nos últimos dias. Melhor mesmo que o regresso precoce aos mercados, as ondas gigantes da Nazaré e o anúncio anedótico do fim da crise.

Calculismos do costume

por Zé Pedro Silva, em 28.01.13

Pode não ter começado da melhor maneira a luta interna, mas lá que o Partido Socialista devia ponderar outra liderança, lá isso devia. O PS é um partido grande, era bom que aparecessem mais pessoas a apresentar mais alternativas, em vez de estar tudo escondido, sem arriscar, a ver até onde vai Seguro e o que consegue Costa.

Arménio pouco clarinho

por Zé Pedro Silva, em 28.01.13

Foi um comentário estúpido, uma afirmação não pensada, uma coisa sem explicação. Pode ter sido. De facto, ninguém acredita que Arménio Carlos seja racista. Mas uma coisa é certa: uma pessoa que se refere a alguém como "escurinho", durante um discurso, perante milhares de pessoas, só tem uma coisa a fazer e essa coisa é demitir-se.

 

Arménio fez, porém, pior. Veio dizer que descontextualizaram a afirmação. Como se descontextualiza alguém que chama escurinho a outra pessoa? Se ele estivesse a falar no galão que tinha bebido ao pequeno-almoço e se nós tivéssemos retirado a expressão para adjectivar o representante do FMI, então aí sim, estaríamos a descontextualizar. Mas não foi isso que aconteceu.

 

Arménio Carlos chamou "escurinho" ao representante do FMI e isso é inadmissível.

Os professores, eu e os porcos

por Zé Pedro Silva, em 26.01.13

 

Sobre a vida profissional dos professores, devo começar por confessar a minha profunda ignorância. Não sei do que se queixam hoje, nem do que se queixaram ontem. E por isso não sei se têm razão hoje ou se a tiveram ontem.

 

Imagino, no entanto, que Portugal tenha professores a mais. E isto não é, atenção, uma ofensa aos professores. Quando se diz estas coisas, parece que estamos a ofender a classe, mas não estamos. Eu não estou. Aliás, quando eu entrei para um curso superior - que não acabei - entraram comigo mais 800 alunos. Ora, a minha faculdade - a Faculdade de Direito de Lisboa - não era a única do país. Ou seja, só nesse ano entraram milhares de alunos para cursos de Direito, o que me fez pensar: haverá tantas relações entre partes neste país para ser preciso tanto advogado, magistrado, etc..?

 

Claro que não. Há licenciados em Direito a mais em Portugal. Sem números - só em estilo de aposta - eu diria que o país se governava com metade dos licenciados em Direito. Mas eles continuam a sair das faculdades aos magotes, sem terem objectivamente mercado para tanta gente. E por isso, quando oiço dizer que há licenciados em Direito a atender nas lojas, a virar frangos ou mesmo a prostituírem-se, só me dou por feliz por terem encontrado trabalho. Não estranho nada. 

 

Voltando aos professores, temo que também haja profissionais a mais. Talvez não em todas as disciplinas, porque já se sabe que há matérias onde faltam. Mas, em geral, há professores a mais. Se estiver enganado, por favor corrijam-me, pois admiti a minha ignorância na primeira linha.

 

No entanto, e independentemente de haver professores a mais ou a menos, a verdade é que estão sempre lixados com o Governo. Sempre. Com este, com o anterior, com o anterior do anterior. Com todos. Não há nenhuma classe em Portugal, nem os trabalhadores em geral, que tenha tantos problemas com o poder político como os professores.

 

A tal ponto que, nas idas e voltas das manifestações em Lisboa, até chegam a encontrar porcos na A1, fenómeno que ocorre muito raramente.

 

[Fotografia: TSF, via Google Images.]

RTP, medos e paixões

por Zé Pedro Silva, em 25.01.13

Já aqui se falou sobre isto, mas o tema regressa aos mercados. A privatização da RTP. É adiada e o país respira de alívio, mesmo sabendo que o Estado vai ter de gastar pelo menos quatro dezenas de milhões de euros para reestruturar a empresa.

 

Contra a privatização vingaram, creio eu, dois argumentos fundamentais. As origens do comprador e essa grande treta que é o serviço público e a necessidade de o Estado controlar pelo menos um grande órgão de comunicação social.

 

Sobre as origens do comprador, gerou-se por aí o pânico com a ideia de que a RTP podia ir parar às mãos de angolanos. Numa altura em que o país precisa de investimento e em que muitos investidores estrangeiros nem querem ouvir falar em empresas portuguesas, nós temos a lata de tratar mal e desprezar os investimentos vindos de Angola. Preferimos, inexplicavelmente, suíços e alemães aos angolanos, moçambicanos ou brasileiros. Há aqui, definitivamente, um problema de orgulho, que é liminarmente estúpido.

 

Sobre os angolanos, de resto, lavramos grandes teorias sobre a idoneidade das suas empresas. Parece-nos tudo obscuro, ilegal e criminoso. Não conseguimos admitir que os angolanos têm dinheiro, têm uma economia a crescer e estão a investir.

 

Já relativamente ao segundo argumento forte contra a privatização da RTP, é mesmo uma grande treta aquilo do serviço público e da necessidade de o Estado controlar pelo menos um órgão de comunicação social. O único meio legítimo de o Estado "controlar" a comunicação social é através da regulação. Não pode ser através da gestão de televisões, rádios, jornais e agências noticiosas, porque o Estado - na pessoa do Governo - não deve ter jornalistas, directores de informação ou conselhos de redacção e é isso que acontece quando o Estado é o dono, por mais liberdade que os profissionais sintam.

 

Por outro lado, a ideia de que a imprensa nacional precisa de órgãos controlados pelo Estado para ser equilibrada e justa é muito complicada, porque isso leva-nos a pensar que o Estado controla a própria linha editorial, pois de outro modo seria indiferente se o dono é o Estado ou uma empresas privada. Essa ideia generalizada de que o Estado é sério e os privados não, é muito perigosa.

 

A confiança que devemos ter no Estado não deve resultar do seu papel como jornalista ou como director de informação. Nesta matéria, a confiança que devemos ter no Estado só pode resultar do seu papel enquanto garantia da liberdade, da democracia e dos direitos dos cidadãos, que através dos seus meios - Parlamento para legislar, regulador para supervisionar e tribunais para julgar - assegurará a liberdade de imprensa e o direito à informação.

 

Quanto ao serviço público na sua vertente cultural, também estamos a inverter um bocado as coisas. A cultura portuguesa não deve ser apoiada do ponto de vista em que é enfiada à bruta através de um canal. A cultura deve ser apoiada na concepção e não na divulgação, porque se aos artistas forem dados meios para produzir - e os meios não são necessariamente dinheiro - a divulgação acontecerá naturalmente. Ou seja, o Estado não me dá condições para eu fazer uma orquestra, mas se eu a conseguir milagrosamente fazer, leva-me à RTP para tocarmos durante 5 minutos no programa da tarde. Este é o resultado quando o apoio à cultura é feito por via da divulgação.

 

Perante isto, não consigo perceber a necessidade de o Estado ter televisões, rádios, jornais e agências noticiosas. Gosto muito da RTP, tenho a simpatia pelo primeiro canal que todos temos, mas a discussão sobre o serviço público de rádio e televisão não deve ser feito no plano emocional ou o futuro será outra vez um único canal, público, a preto e branco, com emissões regulares a partir da 5 de Outubro.

 

Por fim, uma referência ao terceiro argumento contra a privatização da RTP, defendido pelos operadores privados. Bem se imagina que uma RTP privatizada é um problema para a SIC e a para a TVI, mas é inconcebível a ideia de que os portugueses têm de continuar a sustentar uma empresa como a RTP só para manter o mercado dos canais privados. No limite, estarão dessa forma a subsidiar, com o prejuízo da RTP, os operadores privados; e eu duvido que haja muitas pessoas interessadas em financiar com os seus impostos a estabilidade do mercado publicitário.

 

Enfim, não estamos perante uma questão simples, mas o debate foi muito pobre. Entre medos e paixões, não se discutiu nada.

Já toda a gente pediu a fiscalização?

por Zé Pedro Silva, em 24.01.13

 

Vamos lá tirar o nosso chapéu à senhora procuradora-geral da República por não ter pedido a fiscalização do Orçamento de Estado com o mais que evidente argumento de que as dúvidas que a associação de juízes tinha já constavam de outros pedidos de fiscalização. Neste país de pavões é raro encontrar quem não esteja sempre à espera de mostrar a exuberante cauda.

 

Recordemos, a este propósito mas excluindo a metáfora do pavão, o pedido de fiscalização feito pelo provedor de Justiça - também a dobrar outros pedidos de fiscalização das mesmas normas - que o justificou dizendo que se não o fizesse "as pessoas indagar-se-iam sobre para que serve o provedor de Justiça". Pois eu acho que o gesto do provedor é que deverá levar muita gente a indagar: para que serve o provedor de Justiça?

 

De facto, o espectáculo dos pedidos de fiscalização da inconstitucionalidade de algumas normas do Orçamento de Estado, em que todos quiseram participar, pode ser representado da seguinte forma: - Tem horas? - Tem horas? - Tem horas? - Tem horas? - Tem horas? - Tem horas? - Tem horas? - Tem horas? - Tem horas? - Tem horas? - Tem horas? - Tem horas?

 

- Sim, calma, são 22:05.

 

- Eu sabia! - Eu sabia! - Eu sabia! - Eu sabia! - Eu sabia! - Eu sabia! - Eu sabia! - Eu sabia! - Eu sabia! - Eu sabia! - Eu sabia! - Eu sabia!

O Costa resolve?

por Zé Pedro Silva, em 24.01.13

 

Já falta pouco para António José Seguro assistir às sessões plenárias na Assembleia da República pela televisão. Vão fazer-lhe a folha em três tempos e não será difícil nem injusto, porque Seguro é mesmo muito fraco. É inseguro - pese embora o nome de família - não tem ideias, usa retórica populista, abusa da demagogia e não tem capacidade de liderança.

 

Quem assoma no horizonte? António Costa, o presidente da Câmara de Lisboa, pelo menos oficialmente, porque na verdade Costa já nem deve saber onde é que fica Lisboa. Só o Largo do Rato.

 

Ora, António Costa é um homem inteligente, perspicaz e que fala bem. Parece por isso uma boa alternativa não só a António José Seguro - qualquer socialista seria - mas até ao governo. No entanto, já que quer ser primeiro-ministro, era bom discutir-se não apenas as suas boas prestações na Quadratura do Círculo, mas o que fez quando foi ministro dos Assuntos Parlamentares, o que fez quando foi ministro da Justiça, o que fez quando foi ministro da Administração Interna e o que fez enquanto presidente da Câmara de Lisboa.

 

É este passado político que fará dele uma boa alternativa ou não. E é isto que os socialistas deviam já estar a avaliar, em vez de se guiarem, como é costume em todos os partidos, apenas pela imagem, pelo posicionamento e pela popularidade.

 

A opinião que tenho sobre António Costa, talvez levemente influenciada pelo seu trabalho em Lisboa, é muito má. Lisboa está longe de ser uma cidade bem governada e só para os ciclistas é hoje uma cidade melhor do que antes de Costa.

 

De facto, António Costa não é um assombro de político. Está muito acima de Seguros e Zorrinhos, mas nunca nos deixou de boca aberta nem tem uma obra invejável - pelo menos para quem não se desloca de bicicleta. Aliás, não fosse a sua frequente presença televisiva, mesmo que só para comentar, aliada ao considerável poder que tem dentro do PS, e nem se dava por ele.

 

[Imagem: Público, via Google Images.]

E esta, hein!?

por Zé Pedro Silva, em 23.01.13

Só quem nunca teve a oportunidade de travar conhecimento com agentes políticos em funções - ministros, secretários de Estado, adjuntos ou assessores - desconhece a habitual arrogância e sobranceria dos funcionários políticos, que não seriam tão graves se não fossem aliadas a uma profunda incompetência.

 

Há naturalmente excepções. Uma delas parece ser a do adjunto do ministro da Segurança Social, João Maria Condeixa, oficialmente elogiado por um cidadão tetraplégico que, pelos vistos, não foi recebido por um "pois está bem, sim senhor, tens toda a razão, está descansado que eu vou ver isso, cuidado à saída, não vás pelas escadas".

 

«Não me lembro de ser tão bem recebido e respeitado numa entidade deste género. Ali não existiu conversas de circunstância, demagogia (que geralmente interrompo e peço objectividade e respostas) e talvez sim…está muito difícil…veja a conjuntura…recebemo-lo por respeito, mas nada podemos prometer…etc. Não, ali nada disso aconteceu», escreve Eduardo Jorge, no seu blogue.

 

Por ser tão rara esta satisfação de um cidadão, que representa tantos outros, depois de um contacto com o Estado, merece naturalmente destaque. Só por causa disto, se eu fosse o Mota Soares deixava o João Maria Condeixa ficar um fim-de-semana com a Vespa.

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