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Lóbi do Chá

Lóbi do Chá

Um país de palhaços

por Zé Pedro Silva, em 28.06.13

Só pergunto se isto é normal. Não pergunto mais nada. Um país que tem um parlamento que faz uma lei que não se percebe o que diz e por isso começa uma discussão em torno do "de" ou do "da". O mesmo parlamento não revoga a lei para aprovar outra, mais clara, provavelmente porque o Parlamento também não percebe o que diz ou o que deve dizer a lei.

 

Entram por isso os tribunais. Os tribunais de uma região dizem uma coisa. Os de outra dizem outra. Depois entra o Constitucional, que aceita um recurso mas não aceita o outro. E o parlamento, que fez a lei e que a podia clarificar, assiste, como se não fosse nada com ele.

 

Neste país, não é só o presidente que é palhaço, somos todos.

O comício da CGTP

por Zé Pedro Silva, em 28.06.13

A Greve Geral. Não foi uma greve geral. Foi uma greve da função pública. São coisas diferentes e os sindicatos querem deliberadamente passar uma ideia falsa de que o país esteve parado e que a adesão é de 90% dos trabalhadores. É falso. É uma mentira. Pode ter sido uma grande greve da função pública, mas não foi uma greve geral. Nem grande nem pequena.

 

Ainda nas mentiras da greve, de registar o argumento usado pela líder do Bloco de Esquerda para uma fraquíssima adesão à concentração no centro do Porto: não havia transportes. Curiosamente, o facto de não haver transportes não impediu os grevistas de irem dar outras voltas.

 

Estão no seu direito. Greve é greve. Não é preciso irem às concentrações da CGTP. Recuso aquela ideia de que um grevista não pode ir para a praia. Claro que pode. Pode e deve, porque está a fazer greve. Mas a senhora líder do Bloco de Esquerda, na ânsia de defender o sucesso da greve, arrisca na mentira. O que a distingue então dos outros? E o senhor Arménio Carlos, que fala em sucesso da greve geral, quando sabe que não passou de uma greve da função pública? Em que é que é diferente daquele Passos Coelho que também embelezava as coisas quando prometia manter os subsídios? Ou do Portas que não queria esfolar o contribuinte? 

 

Nada. A mentira e o marketing são usados tanto pela direita como pela esquerda. A esquerda não é mais séria do que a direita. A direita também não é mais séria do que esquerda. A aldrabice é pegada e transversal. O povo está a ser enganado. Por todos. Partidos e sindicatos.

 

Aliás, o objectivo desta "greve geral" não era exigir o fim do pacto de agressão? E então? Conseguiram? Não? Vão voltar para a rua, ou não vão? Se calhar a "greve geral" não passou de um comício. Se calhar era este o objectivo. Pelo menos não vislumbro grandes greves gerais que acabassem sem um único recuo por parte do Governo. Nem na Grécia isso aconteceu. As greves acabaram por ter sempre consequências políticas.

 

Qual foi a consequência desta greve em Portugal? Zero. Nada.

 

Muito mais resultados teve a famosa manifestação - essa sim verdadeiramente popular - contra a TSU. E não foi preciso o país parar e rebentar-se centenas de milhões de euros naquilo que não passou de um comício da CGTP. Ou até mesmo um tempo de antena.

Bom dia, Brasil

por Zé Pedro Silva, em 20.06.13

 

Há algum tempo li alguém muito inteligente, daqueles que adivinham tudo, defender que o crescimento do Brasil seria travado por uma convulsão social depois dos grandes eventos desportivos que o país tem pela frente. Errou. Mas por pouco. A convulsão social foi anterior aos eventos desportivos e eu duvido que a realização desses eventos não esteja em causa, porque a revolta é muito grande.

 

Os brasileros não aceitam ver o país a investir todo aquele dinheiro nas copas, quando a miséria segue nas ruas. O que é que isto faz lembrar? Portugal e o Euro 2004, naturalmente.

 

O que está a acontecer no Brasil deve envergonhar os portugueses, que não fizeram o mesmo. Um Portugal pobre fez Expos, Euros e as obras à volta. Ninguém se revoltou. Foi tudo naquela conversa de que é isto que faz desenvolver um país, como se os países desenvolvidos tivessem começado o seu sucesso com taças, copas, campeonatos e exposições.

 

Recordo-me que, em 2004 e antes disso, não se podia criticar a realização do Euro, nem sequer o que a brincadeira custava. Era crime contra a pátria falar-se mal do Euro. Éramos retrógrados, sem visão. Mas agora, podemos perguntar: O que nos deixou o Euro 2004 e a Expo 98, para além de uma dívida que somada à dívida geral não vamos conseguir pagar?

 

A verdade é que estas obras megalómanas não servem o desenvolvimento de um país, mas apenas o ego incomensurável de alguns políticos. Os brasileiros continuam pobres - o povo - e não aceitam ver este espectáculo. Fazem bem. Não querem pagar. Nós, portugueses, éramos pobres - o povo e o país - e quisemos ver o espectáculo todo. Fizemos mal. Estamos a pagar.

 

Sou incondicionalmente contra a violência e é por isso mesmo que acho que o povo não pode deixar que lhe batam mais.

Deixem os dinossauros voar

por Zé Pedro Silva, em 20.06.13

Não gosto de Fernando Seara nem com molho de tomate. Neste sentido, qualquer motivo para ele não se candidatar a alguma coisa é um bom motivo. Contudo, manda a minha incrível imparcialidade, reconhecer que a lei de limitação de mandatos é uma palhaçada. Em Lisboa e em qualquer parte. É sempre uma palhaçada.

 

Impedir uma pessoa de se candidatar a alguma coisa já é esquisito. Impedir uma pessoa que já se candidatou a muitas coisas de se candidatar a mais uma é ainda mais esquisito. Por que raio não pode um homem que foi presidente da Câmara de Sintra candidatar-se à Câmara de Lisboa? Já queimou os cartuchos? Gastou vidas? Não tem mais fichas? É um absurdo.

 

Falam nos dinossauros e nos perigos da perpetuação no poder. Vamos lá ver uma coisa: Se um político é uma besta de um corrupto, tanto é uma besta de um corrupto no primeiro mandato como no décimo. E se é uma besta de um corrupto deve ir para a prisão. Não deve ficar apenas "suspenso", impedido de se candidatar, como quem vai para um reformatório mas depois é para voltar.

 

Falemos do Porto. Também há quem diga que Luís Filipe Menezes não se pode candidatar. Luís Filipe Menezes não é um cidadão português? Nos últimos anos foi presidente da Câmara de Gaia, é verdade, mas por que raio isso lhe retira direitos em relação a uma pessoa que nos últimos anos tenha sido, por exemplo, ladrilhador?

 

Vamos agora para a Madeira, que é o ponto alto desta celeuma dos dinossauros. Alberto João Jardim está lá no poder há um bocadito, está sim senhor. Mas não tem sido eleito pelos madeirenses? Então? Quem é que manda afinal naquilo? Não são os madeirenses? Se os madeirenses querem Alberto João Jardim, fiquem com Alberto João Jardim. No máximo, as pessoas que não vivem na Madeira podem opinar e dizer que talvez fosse melhor mudar de ares. Mas não podem dizer "vá, já chega, agora escolham lá outro".

 

Dir-me-ão "mas o Alberto João Jardim é um ditador dos piores, tem os jornais na mão, mata os adversários, compra votos, etc..". Bom, isso então é um caso de polícia e de Justiça, não é um caso de democracia. A democracia não tem qualquer problema, o democrata é que pode ter. Se as autoridades investigam e concluem que um determinado governante usou o seu poder para condicionar os adversários ou de alguma forma desrespeitar as regras da democracia tipificadas na lei, então é corrido. Pronto. Perde o mandato. Seja o primeiro mandato ou o trigésimo.

 

Dir-me-ão "mas as autoridades não investigam ou investigam mal e as leis não chegam". Mais uma vez, o problema então está nas autoridades e nas leis, não está na democracia. Até porque, se assim fosse, não era esta limitação de mandatos que resolvia o problema, pois não será esta palhaçada que vai impedir um ditador em pele de democrata de fazer o que quer de uma cidade ou de uma região. 

 

A democracia tem de ser aperfeiçoada, é verdade. Pela minha parte, acho que a força dos partidos devia ser reduzida na medida do financiamento público e da abertura das eleições a movimentos de cidadãos, reduzindo a burocracia que ainda hoje é exigida a um grupo de pessoas que não venha da parte de nenhum partido. Isto, julgo eu, podia animar um bocado a democracia e retirá-la das garras dos partidos da situação.

 

Agora, limitar mandatos, só para acertar neste ou naquele? Isto não passa de um remendo à democracia que só a deixa ainda mais coçada e sem cor.

Belo serviço à pátria

por Zé Pedro Silva, em 18.06.13

Por que raio é que a esquerda radical vai pelo cano e até a direita mais tonta ganha terreno? Por que raio é que a esquerda radical continua a recuar num momento - uma das mais graves crises da história - em que devia estar a sonhar com maiorias absolutas?

 

É porque a esquerda já não engana ninguém. Sai um relatório sobre as PPP, ficam logo aflitos com medo de estar a queimar o PS e acabam a encobrir todo o escândalo. Sobre os swaps, só querem morder os calcanhares da Secretária de Estado, ignorando que talvez tenha sido a experiência dela, na Refer, que permitiu trazer para a praça pública esta vergonha.

 

Sim, porque a Secretária de Estado é uma espécie de bufa. E o Bloco quer correr com a bufa. Talvez seja melhor correr com a bufa e meter lá um palerma que só saiba ver passar navios das janelas do ministério.

 

De facto, é muito difícil compreender esta esquerda. Tanta merda, tanta merda, mas depois, no momento da verdade, assobiam para o lado ou limitam-se a servir de escudo ao Partido Socialista. Belo serviço à pátria. Depois os outros é que estão a dar cabo desta merda.

Por que tenho de pagar o swap?

por Zé Pedro Silva, em 18.06.13

Então o Governo corta nos rendimentos das pessoas e paga os swaps? - Pergunta a esquerda, para caçar votos, pois o tom de facto revolta. Imaginar-se que há pessoas a passar fome e que o Governo está a pagar mil e mil milhões por contratos especulativos é mesmo muito revoltante. Mas também é uma demagogia enorme. Porquê?

 

Estes contratos foram celebrados - criminosamente, na minha opinião - com entidades externas e independentes do país. Logo, não podemos comparar os cortes nos nossos rendimentos. Ou seja, são os portugueses que vão ter de pagar estas coisas e por isso haverá sempre alguém a receber e nós a pagar.

 

Se o país agora dissesse "isto é especulativo, portanto não pago", as entidades financeiras colocavam Portugal numa situação de incumprimento. Ninguém quer isto, imagino eu.

 

Falar-se de dinheiro é mais complicado. Mas podemos comparar com a energia. Portugal compra todos os dias energia. O país gasta muito dinheiro com energia. Podemos deixar de pagar... Num país com pessoas a passar fome não podemos estar com o cu sentado no sofá, às dez da noite, a ver televisão. O sol põe-se e a malta vai para a cama.

 

Este cenário não é possível, naturalmente, pois precisamos de energia. Pois bem, também precisamos de dinheiro e de financiadores. Não podemos por isso cortar contratos que assinámos de livre vontade. Os portugueses, representados por patifes ou incompetentes, assinaram estes contratos. Agora, mandar o contrato para o lixo não é solução, pois cortam-nos a luz. 

 

O que é preciso é saber quem teve responsabilidade na assinatura destes contratos, todos eles, seja qual for a empresa, o partido ou o Governo, e levá-los à Justiça para que sejam pessoalmente responsabilizados por aquilo que, tenha sido ignorância ou incompetência, resultou numa fraude ao país e num total abuso de confiança.

Não há exame, o PC está em campanha

por Zé Pedro Silva, em 17.06.13

A primeira palavrinha é para os professores que não aderiram à greve. Eles não demonstraram apoio ao Governo, não demonstraram satisfação com a situação profissional ou com a situação da escola pública. Eles demonstraram apenas um enorme respeito pelos alunos nesta altura e pelo ponto alto de um ano do seu trabalho. 

 

Segundo dados oficiais, a maioria dos alunos fez o exame conforme estava planeado e isso é muito bom, mas reconheça-se que a incerteza sobre a sua realização terá naturalmente prejudicado o estudo e a preparação para a prova, o que os coloca naturalmente em desvantagem em relação a todos os estudantes que foram para ela com a certeza da sua realização, nomeadamente os alunos que não puderam fazer hoje e que por isso a farão noutro dia.

 

Os professores têm direito à indignação mas não podiam ter causado esta instabilidade no sistema de ensino. Nem nos alunos ou nas suas famílias, que não sei se os professores grevistas sabem, mas também estão a passar dificuldades e dispensavam bem mais esta confusão nas suas vidas. 

 

Com isto não quero dizer que os professores deviam fazer greve ao sábado, sem prejudicar ninguém. Ou cantar apenas "Grândola vila morena". Não, isso não seria uma greve nem uma manifestação. Não seria nada. Mas há outras formas de luta. Depois da época de exames, os professores, tão indignados que estão, tomassem as escolas de assalto. Ficassem lá barricados, exigindo negociar com o Governo. Teriam provocado muitos mais danos. Teriam tido voz em Portugal, na Europa e no mundo. O Governo era obrigado a negociar uma semana depois de se iniciar o sequestro da escola.

 

Pois, mas isto seria uma revolta a sério e a luta continua mas agora é só com os dirigentes sindicais a falar na televisão, a dar entrevistas e a fazer discursos. Para isso basta uma greve pulhazita, como esta. Pronto, já se deu espectáculo. Agora fica tudo na mesma, mas os vaidosos já tiveram o seu momento.

 

Cheguei até a ouvir o argumento absurdo de que o Ministério da Educação podia muito bem ter mudado os dias dos exames. Esta é muito boa. Quem defende que o boicote aos exames não devia ter sido convocado está a dizer que os professores deviam fazer greve ao sábado para não chatear ninguém, mas depois os outros dizem que o ministério podia ter marcado novas datas. Qual teria sido então o efeito da greve? Se o Governo alterasse as datas todas dos exames, que greve seria esta? Nenhuma. Teria o mesmo resultado de uma greve ao sábado.

 

Para que se saiba, os professores estão a ser prejudicados na medida em que toda a função pública também está a sofrer. Têm, no entanto, uma tabela salarial superior à média da função pública, mesmo para posições equivalentes, e acima da média comunitária. Têm razão, julgo eu, quando dizem que o congelamento das progressões na carreira torna em alguns casos falsa esta tabela salarial. E neste aspecto, confirmando-se esta injustiça, compreendo que lutem. Assim como devem lutar por uma escola pública cada vez melhor, com mais professores - ou pelo menos os mesmos que hoje o país tem - por turma. Mas lutem sem prejudicar os alunos e as famílias. Isto é possível. Basta quererem lutar à séria, em vez de se limitarem a alimentar este espectáculo de sindicatos dominados por forças políticas que só querem tempo de antena.

 

Aliás, a greve de hoje e as dos próximos dias, que vão prejudicar milhares de estudantes e as suas famílias, sem que se vislumbre algum efeito, serviram basicamente para se fazer estas manchetes:

 

«Pais criticam ministro da Educação» - Que pais são estes? A notícia explica: "A Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE) lamentou hoje a forma como estão a decorrer os exames nacionais do Ensino Secundário, considerando que o ministro da Educação perdeu "toda a credibilidade".» Afinal, os "pais" são a CNIPE, que desconheço mas quase podia jurar que esta confederação nacional independente já comeu marisco à pala de um sindicato. Ou talvez já tenham ido parar a uma sardinhada da CDU, mas erros desses, como Pedro Lomba sabe e bem, podem acontecer a qualquer um.

 

«PS diz que arrogância política do Governo saiu cara aos alunos» - Este PS também foi alvo de um pré-aviso de greve de professores aos exames, mas na altura nenhum colégio arbitral impediu os serviços mínimos e os exames realizaram-se. Dizer isto agora é de um cinismo que não surpreende ninguém.

 

«Bloco exige demissão de Nuno Crato perante "gigantesca derrota do Governo"» - Até agora, perdoem-me a demagogia, mas só vi uma gigantesca derrota dos alunos. O resto parece-me estar tudo igual. Nomeadamente, o Bloco de Esquerda.


«PCP acusa Governo de não estar preocupado com os alunos» - Ao menos tenham a coragem de dizer que puseram os alunos no meio da luta. Digam que a luta vale a pena e que os alunos têm de se aguentar porque eles precisam de votos como de pão para a boca e que o futuro assoma grandioso e comunista. Sim, porque um aluno não deixa de aprender por causa de uma época de exames mais atribulada. Já o PC pode deixar de ser partido por causa de uma má época de eleições.


Enfim, é para estas parangonas que se fazem estas greves. Não admira que falem em vitória. Estão porreiras, estão. Isto vai dar votos. Pode ser o suficiente para o PS não ter maioria e ser obrigado a falar com eles.

Peixe-caracol? Bem bom

por Zé Pedro Silva, em 17.06.13

Peixe-caracol é mais uma agradável surpresa. Pessoalmente, acreditava que estes produtos pré-confeccionados e ultracongelados eram feitos com coisas muito piores.

 

Tenho por isso de dar a mão à palmatória e reconhecer que estava errado sempre que disse que as pessoas que compram estas coisas andavam a comer merda. Pelo vistos não é merda. Menos mal.

25 de Abril sempre, mas só para alguns

por Zé Pedro Silva, em 14.06.13

Pode odiar-se o Governo, pode até ter-se nojo do Governo, mas a verdade é que este é um dos governos mais legítimos da história da democracia portuguesa. Não por culpa dele, mas por existir, à data das eleições, um memorando de entendimento com as instituições internacionais que obrigava ao cumprimento de uma série de regras. PSD, PS e CDS candidataram-se às eleições dizendo que queriam cumprir o memorando.

 

Ou seja, nunca em nenhumas eleições os portugueses puderam ter tanta certeza sobre o programa de Governo que cada partido iria implementar.

 

Entretanto houve alterações ao acordo. Houve um agravamento de medidas e mais recentemente a extensão dos prazos. Todas as alterações e todas as extensões de prazo nunca serão suficientes para alterar o princípio básico do documento, que se mantém intacto. Sócrates, quando anunciou a assinatura do memorando, afirmou que tinha sido "um bom acordo". Disse, também, que o memorando de entendimento reunia o conjunto de medidas apresentadas no famoso PEC IV. Depois disso, Sócrates anunciou que o memorando não implicava cortes em nada. Parecia até que não havia austeridade pela frente.

 

José Sócrates sabia que estávamos prestes a ir para eleições e que ele, muito provavelmente, não seria reeleito. Alguém teria de implementar as medidas que pudessem corresponder às metas traçadas no memorando de entendimento. Metas essas que eram duríssimas, que eram trágicas para o país, mas que Sócrates disse, ipsis verbis, ser "um bom acordo", pois já calculava que não lhe ia calhar a batata quente e que o mau da fita seriam os próximos.

 

Passos Coelho, em campanha, disse que não cortava no 13.º e 14.º meses. Foi uma mentira. Clara. Podia ter essa intenção, mas sendo apenas uma intenção, não podia anunciar com firmeza. Essa mentira, e outras, porém, não chegam para retirar legitimidade a um Governo ou então não teria havido um único governo legítimo desde o 25 de Abril. Aliás, por essa lógica, a Constituição nem sequer dá legitimidade aos governos. A nenhum.

 

Durão Barroso, por exemplo, anunciou um choque fiscal e um mês depois de chegar ao Governo aumentou o IVA. Sócrates, entre promessas de 150 mil novos empregos, ficou muito longe das suas principais promessas eleitorais, tanto em 2005 como em 2009. Aliás, na segunda eleição de Sócrates, que eu me recorde, Sócrates não prometeu a austeridade que se viria a conhecer nos PEC.

 

Alguém questionou a legitimidade destes governos? Não vi ninguém. Alguém questionou a legitimidade de Sócrates para negociar com Bruxelas os primeiros sinais de austeridade, em forma de Plano de Estabilidade e Crescimento? Alguém questionou a legitimidade de Sócrates até para assinar o memorando de entendimento? Querem lá ver que tanto o memorando como os PEC's correspondiam às suas promessas eleitorais em 2009?

 

Claro que não. Mas a legitimidade de Sócrates nunca se questionou. Nem sequer se falou no assunto, mesmo quando Sócrates estava a negociar com as instituições internacionais uma acordo que ia atirar o país para anos de enorme de austeridade e sobretudo quando se podia imaginar que não seria ele a executá-la.

 

Isso, pelos vistos, era legítimo. Mas isto, agora, não. Não há legitimidade alguma. Estes senhores têm de ir todos para o olho da rua para se dar o poder outra vez de mão beijada ao Partido Socialista, único, até ver, que é sempre legítimo, faça ele o que fizer.

 

Sempre legítimo e muito constitucional, porque o Partido Socialista também respeita a Constituição como mais ninguém neste mundo. Mesmo quando assinou aquele acordo,o tal "bom acordo", que é um enorme pontapé no cu da Constituição. Mas depois os outros é que não a respeitam.

 

Dizia o Sol, em tempos: «O primeiro-ministro José Sócrates anunciou esta noite o aumento do IVA para 23% e um corte de até 10% na despesa total de salários do sector público, entre outras medidas de austeridade aprovadas em Conselho de Ministros extraordinário.»

 

Houve um tempo em que cortes só no sector público não eram inconstitucionais. Houve um tempo em que a austeridade não era de modo algum igual para todos. Mas, repito, nesse tempo era tudo legítimo e constitucional. Agora é que não.

 

A esquerda sempre fez e continua a fazer o que quer deste país. Fazem o que querem e o que lhes apetece sempre protegidos por esta imagem imaculada de grandes e únicos democratas. Combatem os adversários apenas neste plano do jogo dos "direitos" e da "democracia". Balelas para enganar os tolos, que caem que nem uns patinhos nesta conversa.

E que tal um plebiscito?

por Zé Pedro Silva, em 12.06.13

Quem manda num país, para mal dos pecados do país, é o povo. O povo é muito mau a mandar no seu país, mas não há ninguém melhor para o fazer. Se não for o povo é um tirano, um extremista, um fundamentalista, um lóbi corrupto, uma máfia, qualquer coisa. Todavia, o facto de todos os outros serem ainda piores, não faz do povo bom a mandar. O ideal era um extraterrestre, igualmente honesto, justo e com jeito para contas que dissesse "deixem comigo" e a malta deixasse e isto fosse tudo uma maravilha. 

 

Mas como ainda não encontrámos este extraterrestre, embora o procuremos constantemente, tem mesmo de ser o povo a mandar. E o povo está muito chateado com o governo e com a política de austeridade. De maneiras que eu, se estivesse no lugar de Passos Coelho, fazia um referendo ao mandato do executivo nas eleições autárquicas. Sem medo nenhum. Um referendo. Sim ou não. E não faria campanha alguma.

 

Um plebiscito assim tinha três vantagens. a) Só tinha o custo de imprimir mais um boletim. b) Retirava das eleições autárquicas o peso da governação, ou seja, não havia o voto de castigo nos partidos que estão no governo, que é claramente uma falha no regime. c) E a maior vantagem: clarificava-se esta paz podre que se vive. Ganhava o "não", com 70%? Ó meus amigos, bom dia e obrigado. Eram logo convocadas eleições. Ganhava o "sim", mesmo que fosse com 51%? Então acabou-se a conversa das eleições antecipadas e cada macaco no seu galho. 

 

Dizem os estudos que são feitos que o governo perderia este referendo. Imagino que sim, mas não estou assim tão seguro da margem. É que a revolta que se manifesta numa resposta a uma entrevista telefónica acalma um pouco quando se pensa um bocado no assunto e não se vislumbra uma alternativa decente.

 

Como já aqui tive oportunidade de referir, a questão não é tanto o governo ser mau. É a oposição ser ainda pior. Neste cenário, estar a provocar eleições é liminarmente estúpido. Adaptando Einstein, podemos dizer que votar na mesma coisa e esperar resultados diferentes é mesmo a puta da loucura.

 

Mas não tenho dúvidas de que, se estivesse no lugar de Passos Coelho, era o que faria. Não imagino o que seja governar com este burburinho. Eu, confesso, não era capaz. E com o plebiscito ficaria sempre de consciência tranquila, pois ouvir o povo é sempre bom, mesmo que seja para ele nos mandar à merda.

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