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Lóbi do Chá

Lóbi do Chá

Neuróticos do caraças

por Zé Pedro Silva, em 31.10.13

Depois das declarações do presidente da FIFA, que foram estupidamente entendidas como um ataque aos portugueses, agora circulam vídeos pelas redes sociais, alguns com décadas, de séries humorísticas onde se gozou connosco. Estamos a falar de séries muito conhecidas, com muito tempo, que já gozaram com praticamente tudo o que existe no mundo. Mas os portugueses, claro, estão muito ofendidos.

 

Então e nós, não gozamos com os norte-americanos, que nem sabem onde fica o Canadá? E com os franceses, que têm pêlos nos sovacos e tomam banho com perfume? E os espanhós, que estamos sempre tristes por eles não gostarem de nós. E nós, gostamos deles? É? O que sente o Ronaldo e sentiu o Mourinho em Espanha não sentiria um Ronaldio e um Mouriñio em Portugal?

 

Levantem a cabeça, suas amélias. Raios partam os complexos. Não temos guerras, temos um clima óptimo, uma gastronomia que é uma maravilha, temos pouco dinheiro mas se formos ao Zimbabué aquilo está pior, as mulheres são lindas, os homens são feios mas muito simpáticos, temos praia, temos campo, temos serra, só não temos neve, mas não temos tufões e os insectos só este ano é que chatearam um bocado mais mas não matam ninguém.

 

Porra, o que querem mais os portugueses para serem felizes e andarem para a frente? Neuróticos do caraças!

Celeuma do Blatter

por Zé Pedro Silva, em 31.10.13

 

Então e um Xanax para todos, hã? Que tal? Assim um de cinco toneladas e nós íamos lá roer um pedacinho para nos acalmarmos. Não era? Ficava logo tudo mais tranquilo e a ver as coisas em perspectiva.

 

É que o presidente da FIFA, figurão que confesso também não apreciar, não disse nada assim tão grave. Disse que Ronaldo é vaidoso e parece um comandante em campo. Alguma mentira? Nenhuma mentira. Um bocado patético, sobretudo na forma, mas realista.

 

Blatter disse, também, que gosta dos dois melhores jogadores do mundo, mas prefere Messi. Não está no seu direito? Até podemos achar que ele está errado, mas o presidente da FIFA pode muito bem, numa conversa com jovens de uma universidade, dizer qual é o seu jogador favorito.

 

Para mim, a resposta de Ronaldo, ontem em campo, foi suficiente. Aquela continência foi de génio. E os golos e as jogadas e todas as coisas que fazem dele o melhor jogador do mundo também. Tudo o resto, desde as declarações de Ronaldo ao longo do dia, até aos vídeos que mostram que existe um Ronaldo humano, passando pelos pedidos de demissão, pelas petições, pelas páginas no Facebook e pelos comentários do Governo... tudo o resto foi excessivo e tão ridículo quanto a figurinha do figurão.

As 50 sombras da Lei

por Zé Pedro Silva, em 30.10.13

Embora reconheça que a evolução da espécie é uma coisa que leva o seu tempo, sou vigorosamente contra todo e qualquer tipo de violência. No entanto, transtorna-me particularmente a violência contra a família. Sim, porque isso de violência doméstica diz pouco sobre a gravidade do problema. Para mim, violência doméstica é bater na máquina de lavar roupa, fechar a porta do frigorífico com força ou dar pontapés no aspirador.

 

Quando alguém bate na mãe, no pai, na mulher, no marido ou nos filhos, não se deve generalizar a agressão, como se o sujeito tivesse batido em alguma coisa lá em casa. Não. E também não há vítimas de violência doméstica. Há vítimas do seu marido, da sua mulher, dos seus pais ou dos seus filhos.

 

Quando uma mulher é espancada pelo marido, não se pode dizer que ela foi vítima de violência doméstica. Isso era se tivesse caído do escadote. Na verdade, foi o animal com quem ela se casou ou juntou que lhe bateu. Foi ele. Não foi um rótulo, uma tipificação ou, pior ainda, um "flagelo social que afecta muitas mulheres". Que coisa mais horrível de se dizer. Isto é música para os ouvidos dos cobardes, que ficam assim como indivíduos anónimos pertencentes a um grupo indiscriminado. Assim até é mais fácil. Por exemplo, eu sozinho não sou capaz de roubar tabaco numa bomba de gasolina, mas trago cigarros, cerveja, jornais, revistas e detergente para lavar o carro se for no meio de uma claque.

 

Voltando ao início, para concluir, queria apenas dizer que transtorna-me particularmente a violência contra a família e que desejo com muita força que os homens que batem nas suas mulheres, encontrem a pessoa das suas vidas na prisão, estou a pensar, por exemplo, naquele recluso assim mais apaixonado e vigoroso, conhecido por nunca estar satisfeito.

 

"Mas isso também é violência!», pensará um ou outro leitor mais atento. Mas é falso. Isto não é violência. É amor. Vá, vamos deixá-los a sós.

Ensaio tardio sobre A Gaiola Dourada

por Zé Pedro Silva, em 30.10.13

 

Já muito se falou sobre o filme A Gaiola Dourada. Acho até que já deve estar para sair do cinema. Se é que já não saiu. Mas ocorre-me falar agora. Creio que ainda vou a tempo. Falar sobre o E Tudo o Vento Levou seria mais dramático.

 

A Gaiola Dourada é um excelente filme. A todos os níveis. Começa por ser um bom filme enquanto filme. Depois, também é uma boa história. E por fim é uma saída diplomática mais eficiente que milhares de horas de discursos e centenas de visitas de chefes de Estado.

 

Confesso que não sei se este filme é mais português ou mais francês. Aparentemente é um filme português dirigido aos franceses. Isso explica-se pela preponderância do francês nas falas, quando mandava a lógica que o francês fosse esporádico.

 

Como seria de esperar, algumas particularidades da cultura portuguesa representada na película não foram do agrado de alguns portugueses. Mas a vida é como é e os portugueses são o que são. Como os espanhóis são o que são. E os ingleses. E os franceses.

 

A verdade é que o filme retrata bem os emigrantes portugueses em França, ainda que exista hoje em dia uma emigração nova que está longe desta imagem. Bom, mas isso será outra história. A história dos cérebros portugueses a brilhar por esse mundo fora será feita um dia. Esta, representada em A Gaiola Dourada, é fidedigna, tem graça e não ofende ninguém. Antes pelo contrário. Os portugueses só devem ter orgulho nos seus emigrantes, pessoas em geral muito sérias e muito trabalhadoras, cuja imagem nos países que os acolhem está muito longe da de outros povos emigrantes, com gravíssimos problemas de adaptação e péssimos registos ao nível da criminalidade.

 

Lembro-me, por exemplo, do que foi a vaga de emigrantes de leste na Suíça. Foi um pesadelo para os suíços. As coisas são como são. Somos todos iguais uns aos outros, mas há de facto uns melhores que outros.

 

Todavia, devo confessar que também não gosto particularmente daquela imagem dos portugueses que preferem jantar no sofá a ver o Benfica, em vez de aproveitarem o fim-de-semana num hotel de luxo, que foi oferecido pela filha. Também não gosto de ver o português que vai ao stand da Porsche e pergunta ao vendedor se pode pôr reboque. Muito menos gosto da postura do vendedor, que despreza o cliente português. E custa-me ver o namorado francês que tem de dizer à namorada portuguesa que ele é mais português que ela, porque a sente com vergonha da sua cultura.

 

Pode ser levemente desconfortável, mas a imagem é fiel e, nessa medida, A Gaiola Dourada é um bom filme. Sobretudo porque constrói a história com humor. Tudo aquilo envolto em drama seria muito pior que dramático.  

 

É muito frequente, no cinema, representar-se os tiques de uma determinada cultura. Quantas vezes os norte-americanos não exibem nos seus filmes aquela imagem da classe média que faz o churrasco nas traseiras, todos vestidos com camisolas de basquetebol? Com essa imagem, nós rimos. Mas quando é a nossa imagem, nós choramos.

 

A Gaiola Dourada é um excelente filme. Uma história divertida, provocadora e que fez mais pelos portugueses em França do que quatro décadas de diplomacia. Nós somos aquilo que somos e A Gaiola Dourada também é sobre aquilo que nós também somos. E como está bem feito, só temos de nos divertir.

 

 

[Imagem e vídeo via página de A Gaiola Dourada.]

Celeuma do bóbi

por Zé Pedro Silva, em 30.10.13

A discussão em torno da decisão de limitar a dois o número de cães permitidos por apartamento já tem a virtude de ter levado ao conhecimento do país que existe uma lei que limita esse número a três. Alguém sabia disto? Eu não fazia a mais pequena ideia de que existia um limite de animais por apartamento. Podia imaginar que existiam limites de saúde pública. Vinte cães num apartamento de 40 m2, por exemplo, é naturalmente um caso que obriga à intervenção das autoridades, mas ia lá eu pensar que mais de três cães por fracção era contra-ordenação.

 

Mas quem é que pensa nisto? E quem é que vai controlar? É por denúncia? E se no dia em que lá for a senhora ministra da Agricultura, ao apartamento/canil, logo por azar o terceiro cão foi à rua fazer o seu cocó? Montam vigilância ao apartamento? Ou será que as rusgas são a meio da noite?

 

E o que é um apartamento? Um apartamento com 300 m2 pode levar dois cães e um com 50 também? Isso é como os limites de velocidade. Um Ferrari F12, que vai dos 200 aos 0 em 20 metros, só pode andar aos mesmos 120 km/h de um Fiat Uno de 89, que vai dos 120 aos 0 pela ribanceira e às cambalhotas. Isto acontece porque o legislador é preguiçoso e o Estado gosta de passar multas. Portanto vai tudo a eito e depois logo se vê.

 

Mandava o bom senso que estas coisas - não os limites de velocidade, mas os cães por apartamento - fossem deixadas à consideração do bom senso e nas mãos dos responsáveis pela saúde pública. Nem dois nem três, porque depende. Há provavelmente apartamentos onde manda o bom senso que não conviva um único cão, mesmo que seja dos mais pequenos.

 

Enfim, confesso que não percebo nada nem de cães nem de apartamentos, mas esta lei - a nova e a velha - parecem-me estúpidas e típicas do nosso complicadíssimo e obtuso ordenamento jurídico. Veja-se, desde logo, o tempo que se está a perder com esta questão. E não falo da atenção que a opinião pública está a dar, mas dos titulares de cargos públicos que estiveram envolvidos neste novo tecto canino. Quantos foram? Quantas reuniões tiveram? Pediram estudos? Analisaram-nos? Com a breca, parece que também temos de limitar o número de pessoas por Ministério.

Estalou o verniz

por Zé Pedro Silva, em 23.10.13

Vamos lá ver uma coisa... Esta deterioração completa do discurso político era uma consequência evidente da deterioração da classe política ou não era? Pois claro que era. Então vamos lá deixar de fingir que estamos surpreendidos.

Não vai chamar porco ao patrão?

por Zé Pedro Silva, em 16.10.13

Ontem fui atendido por uma senhora brasileira, em Cascais. Em conversa, disse-me que faz anos no próximo domingo. E logo a seguir disse-me que ficará desempregada no sábado. E riu-se. Queixou-se apenas durante meio segundo e foi só um encolher de ombros. «Fecha-se uma porta, abre-se uma janela», disse então e com esta é que partiu a loiça toda. 

 

Ainda pensei que tinha ouvido mal ou que a janela que ela ia abrir era para se jogar. Mas não. Ela é mesmo optimista e bem disposta. E até aqui, embora notável, tudo normal. O que mais me surpreendeu foi ela estar a representar a empresa que a vai despedir com o zelo que muitas vezes nem tem quem acaba de ser contratado. 

 

A maioria das pessoas, naquela situação, elucidar-me-ia sobre o porco do patrão e onde ele rebenta o dinheiro da empresa. Ou pelo menos deixava sair uma indirecta. Nada. Um processo até se atrasou um bocado e ela pediu desculpa como se a culpa fosse dela. A maioria das pessoas elucidar-me-ia sobre a porcaria de equipamento que o porco do patrão compra para poder rebentar o dinheiro da empresa em... e voltava a repetir tudo. 

 

Bom, não concordo minimamente com aquela ideia de que as pessoas têm de ser sempre optimistas e aceitar tudo. Muito menos concordo com aquela teoria do rapaz das camisolas - naquele programa deprimente da RTP - que disse que ganhar 500 euros é melhor do que estar no desemprego. Falso. Provavelmente, para ganhar 500 euros a trabalhar de sol a sol e não existindo perspectivas de progressão, é preferível estar no desemprego. E este ponto é mais importante do que parece. O rapaz das camisolas pode ainda não saber o que diz, mas há muitas pessoas a pensar como ele e por isso é que se paga miseravelmente. A ideia de "toma lá 500 euros e dá graças a Deus" é perigosíssima. 

 

Também não concordo com o optimismo que o Governo tentou impor, através de uma máquina patética de promoção da alegria no desemprego. Ironicamente, o embaixador dessa máquina acabou por ser dispensado pelo Governo, o que deve ter sido uma alegria naquela casa. 

 

Em todo o caso, há mesmo pessoas muito mais interessantes, sérias e trabalhadoras do que outras, como aquelas que deviam ser obrigadas pelo Tribunal a manter-se a uma distância mínima de 500 metros de qualquer ofício. Esta rapariga brasileira foi um exemplo disso e estou absolutamente certo de que no domingo já está de janela aberta. 

 

Eu não a posso contratar - mais perto está ela de me contratar a mim - mas fá-lo-ia com o entusiasmo de quem deu com um achado. Et voilà

Recebemos os angolanos com algemas

por Zé Pedro Silva, em 15.10.13

Muito bem, José Eduardo dos Santos. Qualquer pessoa percebe que esta parceria não podia resultar quando os empresários angolanos que investem em Portugal são automaticamente catalogados como bandidos e corruptos, para além das suspeitas que ficam a ganhar pó no vergonhoso sistema judicial de Portugal, que não despacha nada a não ser pequenas fugas de informação. Portugal não tem, aliás, uma Procuradoria Geral da República, tem uma espécie de Wikileaks. 

 

As relações entre Portugal e Angola seriam sempre particularmente sensíveis pela história comum mas nem sempre feliz destes dois países. No entanto, Portugal não tem procurado cooperar, tem apenas tentado condenar, num tom tão paternalista quanto patético. 

 

A incorrecção formal de Rui Machete naquela entrevista recente agravou naturalmente o clima, sobretudo com a histeria que provocou nesses justiceiros de trazer por casa. O ministro português dos Negócios Estrangeiros esteve ridículo e as suas declarações foram inadmissíveis, mas para mim é evidente que Portugal tinha o dever de pedir desculpas ao seu parceiro pelo lento e fofoqueiro sistema de Justiça em Portugal, como tem também de pedir a todas as pessoas, cidadãos nacionais ou estrangeiros, que são vítimas da total ineficiência do sistema. A começar pelo povo português, que assiste a escândalos inomináveis sem nada poder fazer. 

 

Dirão alguns dos justiceiros que a Justiça em Angola é pior ou que nem sequer existe. Pois, mas isso é assunto de Angola. Nós não podemos ficar irritadíssimos quando vemos alguém a comentar a nossa Justiça e até mesmo a nossa Constituição, bramindo depois alarvemente contra as dos outros. Angola é uma nação soberana e não vão ser os portugueses a tentar levar para lá uma Justiça que muito pretensiosamente julgam ter, através de processos judiciais e investigações contra todos e quaisquer investidores angolanos. 

 

Os cidadãos estrangeiros que investem em Portugal devem respeitar as leis portuguesas e ser julgados e condenados quando tal não acontece. Mas não se pode apontar baterias contra um conjunto de cidadãos estrangeiros, com a mesma origem, e depois deixar ali as suspeitas a estagiar em barricas de carvalho nas caves da Justiça, saindo só um copo ou outro para prova. 

 

Digo-o com muita pena, mas a verdade é que o presidente angolano esteve bem na defesa do seu país, dos seus cidadãos e dos seus empresários. Se queremos continuar a cooperar com Angola, não podemos continuar a receber os angolanos com algemas. 

Suspensa já a democracia está

por Zé Pedro Silva, em 15.10.13

Uma das alterações à Constituição que eu faria desde logo seria em relação ao programa de Governo, que passava a ter de ser mais detalhado, vinculativo e publicado antes das eleições. Hoje, o primeiro-ministro eleito deve submeter à apreciação do Parlamento o seu programa de Governo no prazo máximo de dez dias após a sua nomeação. Esse programa pode ser mais ou menos o espelho das propostas eleitorais, mas os portugueses sabem bem que é um documento com muito pouco valor. 

 

Ora, se a Constituição quer proteger os interesses dos eleitores, tem necessariamente de obrigar os políticos a apresentar contratos de Governo, esses sim sufragados, e que depois devem ser executados. Os governantes não podem ser eleitos pelo paleio em campanha, sendo depois legítimo fazerem o que querem, porque isso é uma fraude completa ao espírito democrático - porque o povo não escolhe coisa nenhuma. 

 

Vem isto a propósito do escândalo de oposição que o Partido Socialista está a fazer e que será seguramente o caminho que levará até às próximas legislativas. Isto nem é oposição, é campanha eleitoral. Não apresenta uma única proposta alternativa, limitando-se a condenar as decisões do Governo. Nenhum eleitor pode dizer nesta altura o que o Partido Socialista fará no Governo. Duvido que o próprio António José Seguro saiba. E isso é dramático. 

 

Já nas últimas legislativas, os portugueses assistiram ao actual primeiro-ministro a prometer coisas que não cumpriu e que sabia que provavelmente não podia cumprir. Mas nas últimas ainda havia um memorando assinado, com metas estabelecidas, portanto os eleitores nem podiam ignorar as dificuldades dos tempos que se aproximavam. Mas nas eleições anteriores a estas, os portugueses também tinham assistido a um Sócrates a prometer aquilo que sabia que não podia cumprir, pois já tinha o país a cair aos bocados. E Sócrates nem podia dizer, como os políticos sempre fazem, que desconhecia a dimensão do problema, pois o país que herdava era o seu próprio. 

 

Continuando para trás na história eleitoral, é só governos eleitos com base em mentiras pegadas. Bom, mas ninguém assina um contrato e lê as cláusulas depois. Por isso, os partidos devem ser obrigados a apresentar o programa de Governo antes das eleições, um programa detalhado e vinculativo. Esse mesmo programa é o que o primeiro-ministro eleito deve levar ao Parlamento no prazo máximo de dez dias após a sua nomeação.

 

Desta forma, os políticos são obrigados a dizer a verdade aos eleitores, sob pena de o Governo cair por ilegitimidade, ou seja, desrespeito pelas propostas apresentadas e votadas. Claro que as coisas mudam e é preciso introduzir alterações aos programas, sobretudo em mandatos de quatro anos, mas alterações profundas ao programa têm de ser submetidas a referendo. Não chega as aprovações no Parlamento pela maioria dos deputados, porque os deputados não têm esse mandato. A eleição não é um cheque em branco. Recuando mais um bocado, quando Durão Barroso ganhou umas eleições a prometer um choque fiscal e um mês depois estava a subir o IVA, qual a legitimidade dele e dos deputados que aprovaram aquilo? Perante a nossa Constituição, tinham toda a legitimidade e se isso não é uma coisa difícil de entender, então não sei o que é difícil de entender. 

 

Hoje, com toda a tecnologia, os eleitores podem ter uma participação muito mais activa na política e nas decisões. O papel dos representantes do povo é, aliás, cada vez mais inútil, porque o povo cada vez mais pode representar-se a ele próprio. O Orçamento Geral do Estado, por exemplo, já podia ser votado por todos os portugueses, num domingo destes, no Portal das Finanças. Talvez não votassem todos os portugueses, mas mais de 230 votariam seguramente. Quem diz o Orçamento diz qualquer outra grande decisão nacional que não tenha sido apresentada antes das eleições e que por isso careça de ser legitimada.

 

Esta minha teoria é inversamente proporcional à de Ferreira Leite, que defende uma suspensão da democracia durante 6 meses para arrumar a casa. Acontece que suspensa já a democracia está. E ao contrário do que uma maioria silenciosa pensa, o eleitor não é um bronco que não sabe fazer escolhas. O eleitor não tem é informação e é constantemente enganado, à esquerda e à direita. Por outro lado, a abstenção prova que há muitos eleitores que ignoram deliberadamente esta fantochada. Mas se uma Constituição garantisse o mínimo de credibilidade e valor ao sistema, estou absolutamente certo de que votariam com vontade. 

 

Resumindo, não creio que seja preciso suspender a democracia. Acho que é preciso é pô-la em prática.

Quem avisa, Jorge Sampaio é

por Zé Pedro Silva, em 13.10.13

De vez em quando, Jorge Sampaio aparece para pôr ordem nisto. Andamos todos aqui a dizer disparates, aos gritos, mas lá aparece Sampaio, muito sereno mas ao mesmo tempo muito convicto, a dizer o que tem de ser dito. Agora, veio defender o Tribunal Constitucional e criticar as críticas - foi de propósito - que lhe são feitas, falando num "assomo patriótico".

 

Até o Papa Francisco está a mudar a Igreja, mas os portugueses não podem querer mudar a sua Constituição, muito menos criticar as suas instituições. Temos de viver segundo um princípio de que se esta Constituição diz, então é porque é mesmo assim que deve ser. Pior: temos de viver segundo um princípio de que se metade dos juízes interpretam uma determinada coisa que a Constituição pode ou não dizer, então é porque é mesmo assim que deve ser, seja lá o que isso for, porque depende. 

 

Na verdade, Sampaio nem se atira tanto às críticas dos portugueses, mas mais às das instituições internacionais, como a Comissão Europeia, pela voz de Barroso, ou o FMI, pela voz de Lagarde. Por isso Sampaio fala no tal "assomo patriótico", que é basicamente nós não aceitarmos que alguém diga mal da nossa Constituição ou das nossas instituições.

 

Ora, isto não patriotismo, é provincianismo. Agora, querem lá ver, não posso aceitar que a senhora Lagarde, directora-geral do FMI - mas também podíamos estar a falar de uma empregada de um bar em Lyon - critique a Constituição portuguesa ou as decisões do Tribunal Constitucional, que são objectivamente decisões políticas!?

 

Talvez fosse melhor respondermos às críticas - nomeadamente Jorge Sampaio, que tem tribuna - procurando defender a Constituição - se for possível - e de que forma ela tem contribuído para o desenvolvimento do país, a melhoria do bem-estar e da qualidade de vida dos portugueses, a justiça social, etc.. De um grande assomo patriótico era, de facto, Sampaio explicar isto à senhora Lagarde. E a muitos portugueses, já agora. 

 

Enfim, Jorge Sampaio é uma personalidade muito simpática, talvez até simpática demais. Num momento crucial para o país procurar o equilíbrio das suas contas públicas - não havia crise internacional e o clima era de expansão - o então Presidente da República sentiu-se na necessidade de dizer que "há mais vida para além do défice", esmagando com enorme elegância o Governo, que curiosamente não era do seu partido, aquele que pouco tempo depois viria a tomar o poder com uma expressiva maioria absoluta, aproveitando a ocasião para mostrar que Sampaio tinha mesmo razão, havia muito mais vida para além do défice. 

 

Só foi pena Sampaio não ter avisado os portugueses, naquela altura, de como era a vida para além da bancarrota.

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