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Lóbi do Chá

Lóbi do Chá

Lisboa é cool, sim, mas não graças à CNN

por Zé Pedro Silva, em 31.01.14

 

Embora eu e Lisboa tenhamos decidido dar um tempo - saí eu, vim morar a 25 km, mas ainda nos vemos regularmente - continuo a gostar muito dela e fico sempre orgulhoso quando alguém se refere à minha cidade como a melhor em qualquer coisa, mesmo que seja para ficar sem a carteira. Mas isso é muito diferente de sentir o que quer que seja - muito menos orgulho - por um 'post' publicado na página da CNN.

 

Não, a CNN não elegeu Lisboa como a cidade mais cool. Isso é falso. É mentira. O que aconteceu foi que uma senhora, que escreve na página CNN.com, fez um texto leve sobre as razões para Lisboa ser a cidade mais cool. Mas não se tratava de um estudo, selecção ou votação. Era um'post' simples. 

 

Ora bem, esse 'post' teve destaque em todos os órgãos de comunicação nacionais e deu origem a programas de televisão dedicados ao "prémio". Durante dias ouviu-se que a CNN elegera Lisboa como a cidade mais cool. Todo este deslumbramento foi absolutamente ridículo para a nossa querida Lisboa. Ela não merecia isto. Foi uma vergonha. Lisboa é muito maior que artigos superficiais, ainda que publicados em páginas como a da CNN - que, diga-se em abono da verdade, caiu em desgraça. Mas enfim, ainda é a CNN para muitas pessoas. 

 

O destaque que se deu ao artigo da CNN.com tornou-nos tão pequeninos que durante muito tempo só vamos poder ser observados ao microscópio. Nós desaparecemos do mapa. Eu compreendo que uma cafetaria no Texas fique em êxtase se alguém disser, na página da CNN, que bebeu lá o melhor cappuccino de sempre. Agora Lisboa? A minha cidade? Fazer notícias e programas de televisão por causa daquilo? Com a breca!

 

Esta história vem um bocadinho na senda daquelas reportagens que são feitas sobre o que se disse lá fora de alguma coisa que se passou cá dentro. Nunca viram? Nós cá fazemos notícias sobre o facto de sermos notícia lá fora. "Vejam, vejam, aparecemos no Le Monde e no El País." 

 

É normal que as pessoas guardem os recortes quando aparecem nos jornais, mas países inteiros? Povos civilizados?

 

Não me interpretem mal. Adoro Lisboa. Lisboa não é cool, é gloriosa. O facto de criticar o histerismo à volta da palhaçada da CNN não significa que seja um traidor à pátria que tem a mania que devia ter nascido em Nova Iorque. De maneira nenhuma. Gosto aliás tanto de Lisboa que não me é indiferente quando a ridicularizamos. 

A praxe não existe

por Zé Pedro Silva, em 29.01.14

Está um país a discutir, há semanas, as praxes, que é um problema que não existe. Ou melhor, ele existir existe, mas não devia existir. Já explico. Mas antes, é preciso também lembrar que uma parte substancial da força deste debate são os artigos apaixonados dos comentadores que se aproveitam do mediatismo do tema para brilhar. Depois da desgraça do Meco, houve ali uns dias em que esteve tudo calado, a ver. Depois alguém lá começou a bater nas praxes. Aquilo pegou e então foi uma perfeita e completa tromba de água de artigos sobre as praxes. Lá tinham de aparecer também os políticos, como por exemplo o Bloco de Esquerda, que hoje deu espectáculo no Parlamento sobre as praxes. 

 

Ora bem, o problema das praxes não existe. Estamos no plano das liberdades. Se alguém quiser praxar, se alguém quiser ser praxado e se o estabelecimento, seja a universidade ou o café em frente, permitir a praxe, então não há qualquer questão a debater. Se algum destes três não quiser uma destas coisas, então chama-se a polícia, porque neste país quem não quer praxar não pode praxar, quem não quer ser praxado tem o direito de não ser praxado e um estabelecimento pode recusar praxes nos seus espaços. 

 

É evidente que o praxado pode não conseguir recusar a praxe por se encontrar num estado de sujeição e pode mesmo estar a ser coagido. Tudo contra a lei e as autoridades devem intervir. Quem praxar nestas condições pode ir parar à cadeia. E no caso de uma universidade, se a praxe ocorrer nas suas instalações, deve ser responsabilizada por não ter chamado a polícia quando percebeu que havia pessoas a serem humilhadas, agredidas e ofendidas contra a sua vontade. 

 

Sobre o que se passou no Meco, é isso apenas que se tem de apurar. Estavam lá pessoas contra a sua vontade? Então trata-se de um crime e é apurar a responsabilidade do sobrevivente. Mas se a investigação conclui que não estava lá ninguém contra a sua vontade, então foi um acidente. Um acidente lamentável, mas que não passa disso. 

 

Ou seja, não se pode pegar no acidente do Meco - admitindo que se trata de um acidente - e proibir todo o mundo de praxar e de ser praxado. Se no norte, por exemplo, alguém quiser pintar a cara de um caloiro e se o caloiro até achar graça, não é por causa da desgraça do Meco que essa palhaçada deve ser proibida. As pessoas têm a liberdade de praxar e de ser praxadas, por mais estúpida que a actividade seja. 

 

Falando pela minha experiência, fui praxado. Uma coisa simples. Sem graça. Foi tudo muito chato, mas pronto, foi o que foi. A qualquer momento, se quisesse, tinha mandado aquilo tudo bardamerda e saía. Mas fui ficando. Fiquei a odiar praxes como sempre odiei, mas não consigo fazer a mínima relação entre o que se passou no Meco e o que se passou na minha faculdade. A proibir aquilo é só porque não acho piada nenhuma. Mas para isso também proibia o hóquei em patins. 

 

Enfim, as praxes não existem. Não existem enquanto instituição. As praxes são uma festa, uma brincadeira. Ninguém pode ser obrigado a participar nessa festa e nessa brincadeira. Se alguém for obrigado, trata-se de pelo menos um crime - embora eu veja desde logo três. Se acontecer alguma desgraça no decorrer dessa obrigação, trata-se de mais um crime. E assim sucessivamente. Mas não há mais nada a discutir. Muito menos se as praxes devem ou não ser proibidas. E as festas do caloiro? Devem ser proibidas? E as viagens de finalistas? E a caça ao javali? E as orgias sexuais? E os recordes do Guiness? 

 

Deixemo-nos de tretas. Se alguém é obrigado a ficar onde não quer, é sequestro. Se alguém é obrigado a fazer o que não quer, é coacção. Se alguém vai desta para melhor no decorrer do sequestro e da coacção, é homicídio. Foi no decorrer de uma praxe? Isso não interessa nada. Até podiam estar a bordar.  

6 jovens para fazer 1 click

por Zé Pedro Silva, em 26.01.14

 

O Ministério da Educação - não só esta equipa, mas todas - devem receber milhares de queixas relacionadas com as praxes. Devem receber relatos dramáticos de jovens estudantes traumatizados com episódios de violência e humilhação. Alguma coisa foi feita? Que se tenha conhecimento, não. 

 

Mas agora, agora que estamos todos boquiabertos com o que se passou no Meco, o Ministério da Educação - na pessoa do próprio ministro - vai reunir com este mundo e o outro para avaliarem muito bem isto das praxes. Desde associações académicas aos reitores, passando por alunos, vão finalmente todos pensar um bocado no assunto. 

 

Se o Ministério da Educação tivesse dado atenção às denúncias e aos relatos que naturalmente chegam com frequência do que se passa,  talvez a desgraça do Meco não tivesse ocorrido. Mas em vez de agir, os políticos só sabem reagir. Por isso são a personificação da incompetência. Precisou-se da vida de 6 jovens para fazer 1 click no poder político. 

 

Enfim, quando assisto a estas coisas, também me dá um bocado para a violência parva e confesso que gostava de ver os governantes a rodopiar, presos só pelos mamilos, no radar do aeroporto. Sim, é um bocado tortura, eu sei, mas não há problema porque a Lei e o Estado estarão lá para os proteger. Ou não. 

Vamos ver se chove?

por Zé Pedro Silva, em 16.01.14

No fundo, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera manda-nos ir ver se chove. Digo isto porque, por um lado, há alertas de muito mau tempo, incluindo chuva grossa, mas por outro, a página na internet do Instituto fala em chuveca, no máximo chuvica. E o sol até espreita. Ou será que não? Não sabemos. A dúvida é mesmo essa. A partir do momento em que há todas as previsões, menos calor tropical, tudo pode acontecer. Por isso temos de estar atentos. No fundo, o que o instituto de meteorologia nos diz é "vejam vocês, olhem que esta, hein". 

Pode ser deselegante, mas há aqui uma componente de suspense gerada no país que não é despicienda. Enquanto espanhóis, franceses, alemães, suecos, italianos, norte-americanos, russos e chineses, por exemplo, sabem mais ou menos o tempo que vai estar, nós em Portugal acordamos e "tantanranran! então, está a chover ou um sol do caraças?". Lentamente, abeiramo-nos da janela, devagarinho, com aquela excitação das crianças no dia de Natal, abrimos as portadas ou os estores, devagarinho, devagarinho... atenção, parece-me estar cinzento, calma, um raio de sol, não, sou eu que ainda estou com os olhos sensíveis, vamos lá ver... "Oh... está a chover! Sacanas da meteorologia, enganaram-me outra vez. Ia jurar que não chovia. Mas assim, sem dúvida, tem mais piada."

Também se pode dar o caso do instituto de meteorologia andar um bocado bipolar. Tanto que até mudou de nome, recentemente. E então, mesmo quando confrontado com terríveis superfícies frontais, conclui que vai estar um lindo dia, revendo horas mais tarde a sua previsão para "alerta encarnado", depois lá toma os comprimidos e diz que vai estar só um bocadinho nublado. 

Uma terceira hipótese é estarmos perante o princípio basilar de todos os jogos de azar: a casa ganha sempre. Ao dizer que chove e que não chove, a casa - que é o instituto de meteorologia - ganha sempre. 

Mas enfim, vamos lá aproveitar todo este suspense e lançar um jogo. Esta sexta-feira, por exemplo. Temos uma previsão que dá conta de grande instabilidade, alertas máximos junto à costa. Muita precipitação. No entanto, na página do Instituto o dia estará assim-assim. Ora, vamos lá... Apostas?

Não vale ir à aplicação para telemóveis do Instituto. E digo que não vale, não porque seja batota, mas porque ficam ainda mais baralhados. É que a app anda assim como o tempo. Fraquinha. Falta-lhe muita informação. Não consegue reconhecer onde eu estou, por exemplo, algo que até os angry birds sabem fazer. Reparem bem, acabo de ligar a app e encontro a seguinte informação: "Não foi encontrada informação para a sua localização: Estoril". Quem me manda a mim vir viver para as montanhas do Afeganistão, não é?

A verdade é que qualquer app meteorológica, mesmo aquelas feitas por programadores que nem sabiam da existência do continente europeu, têm muito mais informação e informação muito mais rigorosa. Uso uma do Yahoo que não só já descobriu o Estoril - chegou cá antes dos portugueses - como decora as previsões com imagens belíssimas da região. Mas pronto, nem se pedia as imagens. Era só mesmo o tempo. 

Como se não bastasse a falta de informação, a app do Instituto consegue dar um grande destaque à área de sismos, que é justamente a coisa menos previsível com que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera trabalha. Resta, aliás, descobrir a utilidade de ter informação sobre sismos no telemóvel. Não sendo possível prevê-los, resta-nos então esperar que, se tudo desabar, temos sempre hipótese de ir à app do IPMA confirmar que foi um sismo. "Não há dúvida. Vim parar ao rés-do-chão coberto de estuque porque ocorreu um sismo. Está aqui, na app do IPMA, vejam."

Claro que para isto funcionar, era preciso as antenas das operadoras de telecomunicações permanecerem de pé. E o próprio Instituto Português do Mar e da Atmosfera também. Todavia, mesmo nestas condições perfeitas, creio que não seria de esperar que o Instituto concluísse imediatamente que se tratava de um sismo. Primeiro diria que foi só o camião do lixo. 

Cuidado com os argumentos

por Zé Pedro Silva, em 16.01.14

 

Às vezes não é preciso usarmos os argumentos todos. Em teoria, quando precisamos de convencer alguém a alguma coisa, sentimos necessidade de pensar muito, reflectir imenso, apontar tudo, para não faltar nada. Depois, no momento, percebemos que metade não serviu para nada. Mas o pior é quando não só não serviu para nada como inclusivamente nos prejudicou. 

 

Acontecerá muito, por exemplo, em entrevistas de emprego. Aquelas pessoas que querem levar muitos argumentos para serem contratadas. Falta-lhes então o ar para conseguir enunciar todas as virtudes que têm, os desportos que praticam, as pessoas que ajudam, as matérias que estudaram, os livros que leram. Na verdade, as pessoas praticamente não lêem e são muito sedentárias. Menos nas entrevistas de emprego e nos currículos. Aí, as pessoas praticamente só gostam de ler e de praticar desporto. 

 

Mas isto foi uma volta imensa, admito, para falar sobre o transbordo de armas químicas da Síria. Não vai acontecer em Portugal, mas sim em Itália. Qual é a ligação que eu faço deste tema com o excesso de argumentos? É que Portugal abriu as portas dos Açores ao transbordo. Até aqui tudo bem. Somos aliados. Somos amigos. Todavia, houve alguém que sentiu que isso não chegava e então lembrou-se de justificar a nossa simpatia com o facto de assim se provar a importância da base das Lajes. Uma espécie de "vá, venham lá fazer aqui o transbordo, estão a ver como a base das Lajes é mesmo fundamental?".

 

Bolas, parece que eles optaram por um porto italiano. Boa. Agora deixa lá ver se o espertalhão dos argumentos também se lembra de alguma coisa para fazermos com as Lajes. 

Há alguém que não vá comprar a TAP?

por Zé Pedro Silva, em 15.01.14

 

Desculpem a pergunta, mas há alguém que não vá comprar a TAP? Já todo o mundo apareceu como comprador, menos eu. Portanto, para não parecer antipático, quero aqui anunciar que estou a montar um consórcio para comprar a TAP.

 

Já sei. É para poderem comer dois tabuleiros, mesmo em voos de curta duração. O comum dos passageiros tem direito a um snack, mas um gajo que esteja para comprar aquilo pode sempre comer os tabuleiros que quiser e não tem restrições ao álcool. 

 

- Então o que é que o Chef Vítor Sobral nos preparou para hoje?

- Este voo é até Madrid, só tem direito a uma merenda e um Compal. 

- Olhe que eu estou comprador da TAP, a menina veja lá se não quer ir trabalhar para a Ryanair. Vá, vamos lá. Quero o polvo e uma garrafa de espumante.

 

- Desculpe! Tenho de recolher o tabuleiro, vamos começar a descer. 

- Ah! Diga ao senhor comandante para dar mais uma volta que eu ainda não terminei. 

 

[Imagem: Via Google Images]

Queremos os nossos estaleiros!

por Zé Pedro Silva, em 15.01.14

 

Diz o Almunia, comissário europeu para a Concorrência, em resposta ao Bloco de Esquerda, que a Comissão Europeia não exigiu a Portugal os auxílios públicos que enfiámos sorrateiramente nos Estaleiros de Viana. Almunia diz que a Comissão ainda não tomou uma decisão sobre o assunto, deixando transparecer que tanto podia cair para um lado como para o outro. Diz o senhor comissário que têm trocado muita informação, eles e nós, sobre esta matéria. Foram então informados, com certeza, sobre este negócio da subconcessão.

 

Ora, neste negócio, a Comunidade ficava a arder com a multa, o que significa que a Comissão podia muito bem aceitar outro desfecho, que não envolvesse a devolução dos montantes indevidamente metidos nos Estaleiros. 

 

Perante isto, o José Pedro Aguiar-Branco só tem de pegar no telefone e ligar ao amigo da Martifer a pedir para ele devolver os estaleiros, porque houve um "probleminha" chamado Almunia. A devolução do dinheiro à Europa era a justificação máxima e plena para esta subconcessão. Ora, o homem que podia afundar os estaleiros com uma coima, acaba de dizer que não havia qualquer decisão sobre a contra-ordenação. Fomos, portanto, enganados. Não quero parecer o maluco do presidente da câmara de Viana, mas... Queremos os nossos estaleiros! Queremos os nossos estaleiros! Queremos os nossos estaleiros!

 

Só mais algumas notas para os envolvidos:

 

Martifer, isto não é nada contra ti. 

Almunia, se tivesses falado mais cedo o presidente da Câmara de Viana não precisava de ter feito aquelas figurinhas.

Presidente da Câmara de Viana, foi uma gaita o Almunia só falar agora. 

Aguiar-Branco, despacha-te, liga ao Arnaut, que ainda vais com ele para a Goldman Sachs. 

O mais bonito 911 de sempre

por Zé Pedro Silva, em 15.01.14

 

Quem nem tem jeito para desenhar um quadrado sabe bem como é difícil desenhar um automóvel bonito. Mas mesmo para quem sabe desenhar, desenhar um automóvel bonito é muito difícil. Há marcas com séculos que nunca fizeram uma carroçaria mais ou menos. Depois há a Porsche e o seu 911. O último consegue ser, na minha opinião, o mais bonito de todos. E são todos maravilhosamente belos. Houve ali um ou outro modelo, sobretudo no início deste século, que não eram perfeitos. Mas apenas isso. 

 

Podíamos pensar que como o primeiro saiu bem, a evolução era sempre mais fácil. Mas isso não é verdade. Quantos modelos não se estragaram na evolução? E quantos não se salvaram? O primeiro Quattroporte, da Maserati, por exemplo, era horroroso. Para mim, é hoje o mais belo quatro portas. 

 

Mas estamos a falar do 911 e particularmente do novo 911 Targa. É sublime. Está perfeito. E em teoria eu nem gosto de targas, porque não são coupés nem são descapotáveis e por isso ficavam sempre um bocado abarracados. É como uma marquise, que também não é casa nem varanda. É marquise. 

 

Mas este 911 Targa não é marquise nenhuma. É o mais bonito 911 de sempre. 

 

 

[Imagens e vídeo: Porsche]

Paramos ali nos Açores e passas as armas para a minha mala

por Zé Pedro Silva, em 15.01.14

 

Os Estados Unidos perguntaram a Portugal se podem usar os Açores para passar as armas químicas da Síria de um navio dinamarquês para um navio deles. Não deixa de ser irónico que as armas acabem num navio norte-americano. Pedir aos Estados Unidos para guardar armas de destruição maciça é como pedir a um alcoólico para guardar uma garrafa de whisky. Pior: é um bêbado a dizer ao outro "deixa ver a garrafa que tu não podes beber mais, eu guardo". 

 

Por que raio não ficou a Suíça, por exemplo, com as armas da Síria? A Suíça, sim, estou absolutamente certo que destruía tudo num ápice. Desde logo, porque não têm espaço para armazenar aquilo. Depois, porque são uns medricas e não eram capaz de dormir ao lado de armas químicas. 

 

Há também a questão do transbordo. Os Estados Unidos ligaram a saber se podem trocar as coisas de um navio para o outro. Uma operação militar deste calibre merecia outra logística. Assim, parece que estão a combinar na bomba, porque um foi à terra e trouxe frutas e hortaliças. Ou parece aquela amiga que liga à outra a saber se pode passar lá em casa só para tomar um banho e vestir-se para uma festa e a amiga diz que "sim, claro" depois desliga e pensa "esta gaja tem uma lata...".  

 

Isto aqui não é nenhum motel. - Diria eu, aos EUA, se fosse ministro dos Negócios Estrangeiros. Mas tudo tem um preço. - acrescentaria, e depois, como estamos em boa maré, pedia 400 milhões. É para aliviar os meus pensionistas. - Explicava, mas claro que eles iam espernear, dizendo que era muito dinheiro. - Então 350 milhões, vá, mas fazem vocês o seguro para as nove ilhas, porque se uma gaita dessas cai no chão, estou para ver o sarilho. 

 

(Também publicado no Imprensa Falsa.)

As vidas privadas das pessoas públicas

por Zé Pedro Silva, em 14.01.14

 

Isto começa mal. O título já não é bom. Pessoas públicas... não há pessoas públicas. As pessoas são delas próprias, o que pode existir é exposição pública.

 

Mas, esperem lá. Se dizer que há pessoas públicas é demais, dizer que se trata apenas de exposição também é pouco. Exposição pública têm aquelas coisas que aparecem nos reality shows. Isso sim é exposição pública. Estão numa montra, revelam aquilo que são e desaparecem da circulação. 

 

Coisa diferente é uma pessoa que governa 66 milhões de pessoas, 544 mil km2 e a 5.ª maior economia do mundo. Neste caso, a vida privada tem de estar um pedacinho comprometida. Por exemplo, eu não tenho nada a ver com o facto de o meu vizinho andar a sair a meia da noite para se encontrar com uma mulher, desde que não seja a minha, naturalmente. Mas posso ter qualquer coisa a dizer relativamente ao facto de o presidente do meu país andar a sair da sua residência oficial escondido nas cuecas de um segurança para ir fazer o amor às escondidas com a Segunda Dama. 

 

Na verdade,  devo dizer que não me interessam nada as paixões do Hollande. Mas percebo que possa interessar e não aceito aquele argumento de que é a vida privada do cavalheiro, ninguém tem nada a ver com isso. Claro que têm. 66 milhões de pessoas. A partir do momento em que o Presidente da República anda a sair de mota às escondidas para pinocar uma amiga, isso é um assunto de Estado. Se Hollande não queria que fosse assunto de Estado, então não tivesse concorrido a chefe dele. 

 

Hollande, enquanto tiver o seu traseiro maroto no Eliseu, representa uma nação e a nação pode não querer um representante com o cio.

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