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Lóbi do Chá

Lóbi do Chá

A democracia "irrevogável" do PCP

por Zé Pedro Silva, em 28.02.14

 

O Parlamento português votou hoje uma deliberação que condena os crimes contra a Humanidade perpetrados pela Coreia do Norte e associa a Assembleia da República à ONU nessa condenação. Como seria de esperar, todos os partidos aprovaram a deliberação. Todos, menos o Partido Comunista Português. 

 

Os comunistas portugueses votaram contra esta deliberação. Vou repetir: votaram contra. E porquê? É que ninguém, no seu perfeito juízo democrata, consegue imaginar uma razão forte para se votar contra isto. Mas é capaz de existir, por isso vamos saber o que eles dizem.

 

Dizem, por exemplo, que "o relatório da ONU ainda não foi apresentado às Nações Unidas mas já teve a sua credibilidade internacionalmente posta em causa quanto à metodologia e conclusões".

 

Sim, a credibilidade foi internacionalmente posta em causa quanto à metodologia e conclusões, nomeadamente por comunistas, que, tal como se previa, não existem só em Portugal.

 

Mas é capaz de ser verdade. De facto, não é fácil perceber quantos milhares de presos políticos são torturados nas montanhas. Dizem que são entre 80 000 e 120 000, mas o PCP talvez quisesse números concretos, porque uma diferença de 40 mil pessoas ainda é muita gente. Manda o rigor que não se aprove um relatório que não sabe se são 80 mil ou 120 mil presos políticos. E a tortura? A verdade é que também ninguém viu. Só há relatos de pessoas que escaparam, mas isso pode ser imaginação a mais. 

 

Por outro lado, o PCP diz que o relatório da ONU - o tal sem credibilidade - foi elaborado através de audições realizadas em Seoul, Tóquio, Londres e Washington. Bom, a ONU bem queria ir fazer audições à Coreia da Norte, mas parece que não é fácil. Parece que a Coreia do Norte não gosta de visitas.

 

E entretanto, PCP, qual é o problema das audições serem realizadas em Seoul, Tóquio, Londres e Washington? Já sei. Não digam. São democracias, não é!? Que diabo, tinham logo de ir escolher democracias para fazer as audições. E depois ainda dizem que são imparciais.

 

Adiante - ou melhor, avante - o PCP conclui, pelo menos na notícia que li, dizendo que defende um projecto de "liberdade, democracia, justiça e progresso social" e que é isso que o distancia "de opções e orientações da República Popular da Coreia do Norte". 

 

Que opções e orientações serão essas, da República Popular da Coreia do Norte, que fazem tanta comichão ao PCP? É que eu ia jurar que a ONU tinha parido uma bosta de um relatório, cozinhado em Washington, e que não se passava nada de errado com a Coreia do Norte. Afinal, parece que há lá opções e orientações que não cheiram bem. Talvez milhares de presos políticos? Talvez torturas? Assassinatos? Ou será que é só um TGV? Se calhar a Coreia do Norte quer fazer um TGV e o PCP é contra, por isso é que se distancia. Deve ser isto. 

 

Não, não é. E obrigado ironia, mas já te podes ir embora. A comunidade internacional não tem dúvidas sobre as atrocidades que foram e são cometidas na Coreia do Norte. Tais atrocidades constituem crimes contra a Humanidade. Se o relatório não é mais detalhado, é porque a Coreia do Norte não colabora com as Nações Unidas e responde a todas as tentativas de diálogo com um clima de terror à sua volta. Ora, é justamente por isso que este relatório é um passo enorme. Mas também muito arriscado, porque vai enfurecer a China. E como enfurece a China, também enfurece o PCP. Talvez seja esta a verdadeira razão para o voto contra dos comunistas portugueses. 

 

Acontece que, na minha opinião, este gesto de subserviência do PCP encerra uma atitude antidemocrática e, por essa via, inconstitucional. O voto do PCP é uma ameaça clara e manifesta à liberdade e à democracia em Portugal, porque acaba de proteger, ao abrigo da Constituição da República Portuguesa, um regime totalitário. Pese embora a maior ou menor credibilidade dos relatórios que se conseguem fazer do que lá se passa, a violação dos direitos humanos na Coreia do Norte é uma evidência, que nem o PCP pode ignorar. 

 

É claro, porém, que em Portugal, por razões históricas, a única ameaça à democracia e à liberdade que se conhece é o fascismo, logo o PCP está amplamente protegido, porque pelo menos essa forma de ditadura eles não protegem. Que fique então o povo sabendo que o Partido Comunista Português, aquele que ainda há pouco tempo fez um brilharete eleitoral, protege um regime que persegue o seu povo e que tem as montanhas lotadas com presos políticos. O PCP protege, no Parlamento nacional, a tirania e o despotismo no mundo. Mas não se preocupem, porque para Portugal parece que tem um projecto de "liberdade, democracia, justiça e progresso social".  

Quando as máquinas tinham medo

por Zé Pedro Silva, em 28.02.14

 

À procura de uma imagem para a capa da página do Lóbi no Facebook, fui dar com esta imagem. Não sou propriamente um ancião, mas ainda conheci as máquinas de escrever. Ora, quem é que nunca fez isto!? Quem é que nunca carregou nas teclas todas ao mesmo tempo, sobretudo em fúria!?

 

Hoje em dia é mais "ENTER, ENTER, ENTER, ENTER, ENTER, ENTER", mas não tem tanta graça porque não vemos os coisinhos das letras - que hão-de ter uma designação técnica mais elaborada - assim todos juntos, estrafegados, entalados, com medo, a tentar perceber pelo rabo de olho se já estamos mais calmos.

 

Quando soltávamos as teclas, havia sempre alguns que ficavam presos. Tínhamos de os ajudar. E eles de certa forma até ficavam agradecidos, mas fugiam logo dali a correr, como os gatos. 

 

Agora que penso nisso, talvez este autêntico moche de letras nos acalmasse, coisa que hoje os computadores não fazem. Bem podemos fazer "ENTER, ENTER, ENTER, ENTER, ENTER, ENTER", que eles nada. Ficam na deles. A pensar, a pensar. E nós continuamos "ENTER, ENTER, ENTER, ENTER, ENTER, ENTER" e eles nada. Parecem dizer "podes continuar a fazer ENTER". 

 

Essa indiferença ainda nos irrita mais. Se os computadores também ficassem aterrorizados connosco, como as pobres máquinas de escrever ficavam, talvez merecessem mais compaixão. 

Nem melhor nem pior, o país está assim-assim

por Zé Pedro Silva, em 27.02.14
Mas continua lindo, como se pode ver por Cascais, ontem...

 

Talvez seja indelicado - para não dizer pior - afirmar que o país está melhor. É possível perceber a ideia e até pode fazer algum sentido se a contextualizarmos no plano da imagem internacional ou da confiança na economia, mas do ponto de vista das pessoas - do povo - o país está pior. Está pior porque há mais desemprego. Está pior porque há mais dívida. Está pior porque há mais pobreza. Está pior porque há menos direitos. Em praticamente todas as variáveis, o país está pior. Até no clima, pois já não se via um Inverno assim há muito tempo. 

 

Contudo, é importante referir que estranho seria se o país estivesse melhor. É que um país entrar em bancarrota e ainda ficar melhor é coisa que nunca se viu. Mesmo a Irlanda - que volta a ser exemplo e modelo - não estará melhor do que estava. Como se costuma dizer: está diferente. 

 

O primeiro-ministro foi, portanto, nabo, ao sugerir ao país que ele está melhor. Num círculo pequeno e específico, até o poderia ter dito. Por exemplo, para os mercados internacionais, para a confiança externa, não há qualquer dúvida de que o país está melhor. Sendo certo que esta melhoria pode passar a nova desgraça num espaço de horas, porque os mercados internacionais e os níveis de confiança são mais sensíveis que nós quando estamos com um escaldão. Mas para esses - e esses importam - na data e à hora a que escrevo - o país está melhor. 

 

Acontece que para as pessoas  - e essas ainda importam mais - não está nada melhor. Está muito pior. Está como muitos especialistas, gente tecnicamente qualificada, durante décadas avisou que o país ia estar. Bateu tudo certo. Como um sismo: sabia-se que ia acontecer, só não se sabia quando. 

 

Naturalmente que sem crise de dívidas soberanas, com uma Alemanha mais solidária e uma outra Europa, talvez até pudesse não ter existido resgate financeiro e podíamos estar hoje aparentemente melhor ou aparentemente na mesma. Só mudava, porém, uma coisa: a data do sismo. 

 

Bom, mas se podemos discutir o país, nomeadamente se ele está melhor, pior ou assim-assim, já quanto à oposiçao não restam dúvidas. Está muito pior. 

 

Por exemplo, li há pouco um comentário do Partido Socialista sobre o congresso do PSD. Dizem os socialistas que o PSD fechou-se no congresso a rir-se do país. Este estilo é perfeitamente aceitável a um Bloco de Esquerda, a uma CDU ou até a um CDS. Já não é tão normal que o maior partido da oposição e a quem caberá, mais cedo ou mais tarde, a tarefa da governação, ande nesta vida.

 

Há um mar de críticas que se podem fazer ao PSD e ao Governo. Mas dizer que eles se estão a rir do país é de uma enorme falta de carácter, para não dizer outra coisa, acabada em utice.  

 

Já durante o fim-de-semana, depois de encerrado o congresso do PSD, foi possível ouvir o líder do PS, aos gritos, a fazer a única oposição que sabe, que é falar dos pobrezinhos. Os pobrezinhos são cada vez mais, é verdade. E os pobrezinhos têm de ser a principal preocupação de quem trabalha em São Bento, mas não se ajudam os pobrezinhos falando neles. Seguro acredita que vai resolver a pobreza invocando-a em todos os discursos. Mas está enganado. O que os pobres querem é propostas alternativas. Mas propostas alternativas mesmo, porque dizer que se tem propostas alternativas não é o mesmo que tê-las. 

 

Os pobres não querem a falsa comiseração do António José Seguro. Não querem aquela patética piedade com que adorna sempre as suas palavras. Os pobres querem que eles seja honesto, franco e sério. Querem que ele diga qual é a sua estratégia, que apresente a sua linha de orientação política, para então aí os pobres saírem todos à rua, atrás dele, com a bandeira do seu partido, para derrubar estas políticas. 

 

Mas qual quê!? António José Seguro e o seu PS são uma assombração de Bloco em ponto grande. Uma oposição feita de demagogia em forma de frases feitas e sonantes para poupar trabalho aos jornalistas na elaboração dos títulos. Há uns meses era o segundo resgate que era inevitável, agora exigem uma saída limpa. E não se demitem, o que é espantoso. Aquela direcção que apostou forte no segundo resgate e que por causa disso exigiu a demissão do Governo, devia agora demitir-se e dar ao partido a oportunidade de escolher uma nova liderança, um novo caminho, uma nova estratégia. Nova, não. Uma estratégia, porque até agora não houve nenhuma.

 

Ao contrário do Governo, diga-se, porque tem muitos defeitos - imensos defeitos - mas lá que tem estratégia tem. Podemos criticá-la. Até o devemos fazer. Mas tem. E tem uma estratégia que, não obstante o populismo e a demagogia das campanhas eleitorais, corresponde àquilo que se podia esperar deste Passos Coelho. Quem estava à espera de outra coisa, não estava atento. 

 

Resumindo, o país em geral está pior, pois claro que está. Se podia estar melhor do que está hoje? Talvez sim, é uma discussão interessante. Se podia estar melhor do que em 2011? Não, não podia. Mas de lá para cá, o que está mesmo uma desgraça é a oposição. E isso é uma desgraça para o país. 

 

Não tenho dúvidas de que o maior problema político de Portugal, neste momento, não é o Governo, é o Partido Socialista. É o Partido Socialista que tem de mudar, porque os portugueses - onde se incluem os pobrezinhos que Seguro vê todos os dias - precisam de uma oposição. Mas uma oposição à séria, não é esta brincadeira. 

A Stephanie e o dérbi

por Zé Pedro Silva, em 09.02.14

Tendo acompanhado com interesse, em páginas da especialidade, a evolução da simpática "Stephanie", considerei estranha a decisão de manter o jogo entre o Benfica e o Sporting. A previsão apontava - como se verificou - para a ocorrência de fenómenos atmosféricos "severos", particularmente nesta região. O mau tempo verifica-se em todo o país, mas creio que a depressão já se previa particularmente forte em Lisboa. E a entrada da "Stephanie" estava agendada para as 18 horas, hora do início do jogo. 

 

Para além disso, a Protecção Civil lançou avisos e alertas, entre os quais, um que pedia para as pessoas permanecerem em casa. Desconheço qual é a lógica de um serviço de Protecção Civil pedir às pessoas para ficarem em casa e, ao mesmo tempo, realizar-se um evento desportivo que reúne cerca de 50 mil pessoas. Isto é estúpido. 

 

Quando lidamos com "Stephanies", não sabemos bem o que pode acontecer. Pode não ser nada, perder tudo força e ter sido apenas um falso alarme. Ou pode ocorrer uma calamidade. Esta "Stephanie" não foi uma coisa nem outra, mas chegou para causar muitos estragos, nomeadamente nesse corajoso encontro de futebol, onde por muito pouco - uma questão de minutos - o resultado não foi dramático. 

 

A responsabilidade, neste caso, é em primeiro lugar das autoridades, que têm de ter a coragem de desmarcar até grandes dérbis. Sabemos que estão muitas expectativas em jogo e muito dinheiro, mas com a segurança das pessoas, especialmente em eventos onde o risco já é elevado, não se pode jogar. 

 

Há também, no entanto, uma responsabilidade das pessoas que vão assistir ao jogo. Não se pode andar uma semana a chamar nomes aos putos das praxes que se colocam voluntariamente em situações de risco e depois ir ver o Benfica - Sporting quando a recomendação é de permanecer em casa. 

 

O jogo foi adiado - sabe-se agora - para a próxima terça-feira. Esta notícia devia ser de ontem. Claro que ontem corria-se o risco de hoje estar um dia mais ou menos maravilhoso e de se ter de lidar, portanto, com a ira daqueles que só quando levam com uma chapa de zinco na cabeça é que percebem. 

 

 

[Vídeo via TSF]

Miró no país das maravilhas e em Portugal

por Zé Pedro Silva, em 05.02.14

 

País das Maravilhas: Há uma colecção de quadros de Miró, provenientes de uma burla, que o Estado pode vender. O Governo tem competência para vender mas opta por discutir com a oposição, no Parlamento. A oposição é contra a venda. O Governo é favorável. Discutem, trocam argumentos. O Governo decide então vender. Trata dos papéis. Manda para a leiloeira. O leilão é feito. Os quadros são vendidos. O Estado recebe o dinheiro. Fim.

 

Portugal: Há uma colecção de quadros de Miró, provenientes de uma burla, que o Estado acha que pode vender mas há quem diga que não. O Governo até teria competência para vender, mas como não se sabe de quem são os quadros, não tem. A oposição chama a polícia. O Governo rabisca a guia, enfia os quadros numa mala diplomática e consegue passá-los para Londres. O leilão é amanhã. Tribunal decide sobre providência cautelar para travar venda. Leilão está quase. Tribunal recusa providência e autoriza a venda mas diz que se lhe tivessem posto a questão de outra forma não tinha autorizado, pois aquilo é tudo uma ilegalidade completa. Governo respira de alívio. Leilão está por horas. Leilão suspenso. Leiloeira tem medo da justiça portuguesa e portugueses compreendem-na. Quadros vão regressar. Ainda não se sabe ao certo quem é que devia ter assinado a guia. Governo diz que ainda não foi desta, mas os quadros vão ao ar. Ai vão, vão. Oposição diz que não. Justiça diz que também não sabe se vão. Ainda a procissão vai no adro. 

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