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Lóbi do Chá

Lóbi do Chá

A diferença entre um jornalista e um espantalho

por Zé Pedro Silva, em 24.03.14

Não assisto jamais aos comentários políticos de José Sócrates, pois não acho admissível que alguém que foi primeiro-ministro há tão pouco tempo e com evidentes responsabilidades - para o bem e para o mal - pela situação do país, se sente na televisão, aos domingos, a comentar a política nacional. Isto é, aliás, universalmente anedótico.

Acontece que neste domingo, talvez tenha sido interessante assistir ao comentário político de José Sócrates, pois o jornalista José Rodrigues dos Santos não aceitou fazer de biombo e deu utilidade ao espaço informativo, confrontando o comentador com o anterior primeiro-ministro, que calha ser a mesma pessoa.

Então José Sócrates quer ser comentador, mas não quer comentar o que dizia o Governo anterior, que por acaso era o seu? Como é que podemos ter comentário político sem um enquadramento? Só numa situação: Se o comentário político não for comentário político algum, mas apenas um espaço de oposição e defesa pessoal, como é manifestamente o caso. Tanto quanto sei - mas admito que sei pouco, corrijam-me se estiver enganado - Sócrates não faz comentário político, defende-se apenas, todos os domingos, com ataques. É isto o programa de José Sócrates na RTP. Não é comentário político.

Neste contexto, considero o papel de José Rodrigues dos Santos irrepreensível, porque isto é verdadeiramente isenção. Ao confrontar José Sócrates, ele não está a acusá-lo nem tão-pouco passou à figura de adversário. José Rodrigues dos Santos fez uma coisa muito mais importante, que foi dar oportunidade a José Sócrates de se explicar, de se defender e de comentar a posição do Governo anterior, que por acaso era liderado pelo agora comentador.

Isto é isenção e a RTP acaba por praticamente se limpar do escândalo que é o espaço de comentário de José Sócrates, bastando para isso que o jornalista tenha sido jornalista. Não foi apresentador de televisão.

Dir-me-ão que só digo isto porque não gramo a figura, como sempre se diz de quem critica José Sócrates. É sempre ódio. Mas não é verdade, porque não sou dos que têm ódio ao ex-primeiro-ministro. Entendo que fez coisas notáveis. Defendi-o aqui várias vezes e em diversas matérias. E se for preciso, volto a defendê-lo nessas matérias com a mesma convicção. Mas não é isso que está em causa. Não é o julgamento político de José Sócrates, porque esse deve ser feito pelos eleitores. É uma questão de princípio, que vale para José Sócrates como para todos os ex-governantes, a maioria naturalmente com menos relevância, da esquerda à direita, que também aparecem a comentar no dia seguinte como se nada fosse.

Já aqui defendi, em tempos, que os políticos não devem comentar a política. Devem ser entrevistados, devem ser ouvidos, mas não devem ser comentadores. Ou são políticos ou são comentadores. Não se pode pedir a alguém que é manifesta e declaradamente faccioso para ser imparcial e equidistante. E a culpa nem será desse alguém, na minha opinião. A culpa é de quem lhe pediu tal coisa tão impossível.

O meu ponto fundamental, portanto, é o espaço travestido de comentário político. O comentador político José Sócrates não pode estar imune a 6 anos da história recente do país, com evidente influência no presente. Mas se alguém fala no período em que governou, que foi praticamente ontem, Sócrates fica danado, porque não pode ser, há um escudo. Um cordão sanitário. É indelicado falar a José Sócrates em José Sócrates. É uma ofensa confrontar-se José Sócrates com José Sócrates. É mau jornalismo perguntar ao comentador político José Sócrates pelo primeiro-ministro José Sócrates. Sócrates não quer falar de Sócrates, só quer falar de Passos, Portas, Maria Luís Albuquerque e Cavaco Silva. Sócrates só comenta estes sujeitos e se tiver de falar de Sócrates é só para dizer que fez tudo o que estava ao seu alcance, pobre diabo, para salvar os portugueses desta sorte, mas a direita estragou tudo.

Pois, mas não pode ser, porque isso não é comentário político, é política. E uma coisa é política, outra coisa é comentário político. Sócrates continua a fazer apenas política. José Rodrigues dos Santos lá conseguiu, com alguma coragem, obrigar o comentador político a fazer um bocado de comentário político, já que é isso mesmo que ele quer. E a diferença entre um jornalista e um espantalho, é esta. José Rodrigues dos Santos é jornalista.

Ora bem, mais um fundo para constituir

por Zé Pedro Silva, em 21.03.14

Pese embora toda a euforia política em torno da união bancária, que a União Europeia alcançou, tenho cá para mim que o resultado, para os contribuintes, é que vão resgatar os bancos duas vezes. Falo, neste caso, no mecanismo de segurança, aprovado com a união bancária, e que prevê um fundo de apoio aos bancos em dificuldade. A ideia é boa: os bancos entram em dificuldades e é o fundo, não a malta, que responde. Ninguém pode dizer que a ideia é má.

Acontece que esse fundo tem de ser financiado. Calma, porque são os próprios bancos que financiam. Mas... os bancos financiam como? Será que são os banqueiros que vão à fortuna deles e dizem "tomem lá 600 milhões para o fundo, pronto, pessoal, eu já dei a minha parte"?

Não me parece. Os bancos vão financiar o fundo mas vão reflectir no consumidor a despesa, como sempre fazem. Sobretudo quando se sabe que os bancos são guiados pelo princípio de que as suas crises só são más para os seus clientes e para os contribuintes em geral. Em bom rigor, todos os negócios são assim. Se fecha a drogaria no bairro, perde o bairro todo. Mas enquanto o fecho da drogaria nos prejudica apenas na medida em que nos obriga a ir ao Aki, já o fecho de um banco nos obriga a ir à falência também.

Está assim perfeitamente justificada a distribuição pelos clientes da contribuição para a vaquinha. É para os salvar a eles, clientes, mais do que aos bancos, que nunca falham, são sempre vítimas de qualquer coisa.

Recapitulemos então: quem paga o fundo? Ora bem, exactamente, os clientes dos bancos, que acabam por ser os famosos contribuintes.

Falemos agora sobre valores. São 55 mil milhões de euros que vão estar ali disponíveis para socorrer os bancos. 55 mil milhões de euros. Isto não é um fundo, minhas senhoras e meus senhores, é um mealheiro. Só em Espanha, a "ajuda" aos bancos ultrapassou os 40 mil milhões de euros. 30 mil milhões foram só para o Bankia. Como é que 55 mil milhões de euros, financiados pelos clientes dos bancos - com naturais prejuízos para a economia - tranquilizam alguém neste mundo?

Não sei, mas lá que a Europa acaba de anunciar que é isso que devolverá confiança ao sistema bancário, acaba. Pela minha parte, acho que é gozar com os europeus, que agora vão pagar o fundo e depois o resgate e depois o fundo outra vez, que terá de ser recapitalizado. Isto ficou manifestamente pior. Porque até ontem os pobres desgraçados só pagavam o resgate.

Programa cautelar, para quê?

por Zé Pedro Silva, em 20.03.14

A pergunta não é retórica. Em que é que consiste o programa cautelar? Que eu saiba - e sei muito pouco - um programa cautelar é apenas uma segurança em matéria de financiamento da República, caso o regresso aos mercados corra mal.

A verdade é que Portugal já regressou aos mercados e não se pode dizer que tenha corrido mal, embora também não se possa dizer que o problema está resolvido. Acontece que a dívida emitida tem vencimento muito para além do programa de ajustamento - que termina dentro de pouco tempo - e também para além da duração de um programa cautelar. Dir-se-ia, portanto, que existe confiança nos mercados.

Por outro lado, a correr muito mal o regresso aos mercados depois da saída da Troika, programa cautelar existirá sempre, ainda que não se estabeleça um logo à partida. Eu ouvi há poucos dias a chanceler alemã dizer que apoia Portugal na saída do programa de ajustamento. A Alemanha é uma das maiores economias do mundo e é um país credível em matéria dos compromissos que assume. Podemos não concordar com a estratégia e somos até livres de lhe virar as costas, mas não estamos a lidar com bandidos.

Perante isto, em que é que consiste o programa cautelar? A sua existência, ainda que não exista um financiamento ao seu abrigo, é razão suficiente para manter a serpente dos juros dentro do túnel? Será que Portugal só consegue este pequeno sucesso nos mercados graças à tutela das instituições internacionais e por isso precisamos de mostrar que ainda estamos sob égide internacional? Tal não fará muito sentido, pelos prazos de vencimento da dívida que está a ser emitida. Mas se assim for, diria então que nunca nos livraremos dessa dose de risco e que, portanto, um dia largados à nossa sorte, lá regressam os juros às barreiras incomportáveis dos pelo menos 7% e estamos novamente a chamar a Troika.

Em qualquer caso, não vejo qual o interesse de um programa cautelar, comparando com uma saída limpa e no pressuposto de que programa cautelar existe sempre e ele é o apoio da Comunidade e particularmente da Alemanha. Diria até que, não se conseguindo uma saída limpa, então talvez o melhor cenário seja mesmo o da reestruturação da dívida, porque este momento é absolutamente derradeiro nessa matéria. Estando Portugal nos limites, a necessidade de um segundo resgate depois da saída da Troika e por incapacidade de o país se financiar autonomamente e em condições aceitáveis será fatal para a teoria de que o país consegue seguir em frente e pagar, que é aquilo em que muitos já não acreditam.

Neste contexto, não me parece existir meio termo. Ou bem que Portugal consegue uma saída limpa, com o apoio da Comunidade, ou a única alternativa talvez seja mesmo a reestruturação. Nessa medida, o manifesto dos 74 agora com mais 74 estrangeiros, pode ter alguma utilidade: Fazer recair também sobre os investidores responsabilidade neste processo. Eles são também o tal programa cautelar escondido. Mas para isto era preciso que os mercados fossem racionais.

Um Porsche ou um Dacia?

por Zé Pedro Silva, em 18.03.14

porscheoudacia

De vez em quando, lá vem a notícia do aumento das vendas de carros de luxo, para ficar tudo danado, a resmungar. Pela minha parte, sempre que vejo um carro de luxo ao lado, só me dá vontade de apitar e dizer "obrigado, obrigado por ter comprado essa máquina de comer impostos e só espero que quando sair o modelo novo, vá a correr comprar".

Vamos lá ver uma coisa. Um Porsche Cayenne Turbo S Tiptronic custa 196.364,74€. Destes, 32.096.13€ são ISV, 36.718.31€ são IVA e 806,51€ são IUC. Ora bem, 69.620,95€ são impostos. Se o cavalheiro ou a madame tivesse optado por um Dacia Sandero, tinha largado 2.043€.

Depois há a gasolina. O Porsche gasta 15 litros/100. Num ano, faz, por exemplo, 25 000 km, que são então 3750 litros. Por aqui a gasolina está a 1.534. São então 5.752,5€ em gasolina, sendo que cerca de 56% deste valor são... impostos. Mais ou menos 3.200€. O dono do Porsche paga mais impostos em gasolina por ano do que o dono de um Dacia Sandero a comprá-lo.

É certo que na compra do Porsche voam cerca de 127 mil euros para a Alemanha - menos a margem do importador. Mas se pensarmos que é para o grupo no mundo que mais investe em Portugal, talvez meta menos dó.

Entretanto, sim, é verdade: O Porsche larga para o ambiente 270 gramas de CO2 e isso representa um custo para o país. Mas o Dacia larga 116 gramas. Agora recordemos que para o Estado receber de impostos em Dacias o valor que recebe de um Porsche Cayenne Turbo S Tiptronic, têm de se vender 34 Dacias. 34 Dacias Sanderos são 4 quilos de CO2 por quilómetro.

Resumindo, quando alguém compra um Cayenne Turbo, o Estado recebe 70 mil euros, mais uma renda anual em gasolina e IUC à volta dos 4.000€. Se esse alguém compra um Dacia, o Estado recebe 2 mil euros, mais uma renda anual de 800€ e é se esticarem o Dacia.

Claro que podem sempre dizer que o ideal seria comprar o Dacia e investir o dinheiro. Sim, mas se alguém escolhe um Dacia em vez de um Cayenne Turbo, provavelmente vai investir em selos.

Prescrições e o regresso à honra

por Zé Pedro Silva, em 15.03.14

Esta crise provou, mais uma vez, que em alguns momentos da história são necessárias medidas excepcionais. Medidas que, muitas vezes, quando não ultrapassam os limites da lei, pelo menos pisam-nos. Para o país não cair numa situação de bancarrota, já ninguém tem dúvidas de que foi necessário recorrer a medidas extraordinárias. Decisões que podiam ter sido evitadas e que jamais seriam tomadas se não existisse uma necessidade extrema. Algumas dessas medidas são até de carácter permanente, na medida em que se concluiu que estavam também na origem do problema. Por exemplo, nenhum português quererá volta a ver titulares de cargos públicos a receber, ao mesmo tempo, ordenados e reformas douradas, como fizeram algumas altas figuras da política portuguesa e que só num país em que o poder político não é responsabilizado, podem continuar hoje em exercício como se nada fosse. Foi nas costas do povo e dos contribuintes, que o poder político permitiu pagar-se com salários e  reformas.

Regressando às medidas excepcionais, elas devem ser mais amplas que os ajustamentos financeiros, porque há de facto mais vida para além das finanças públicas. Em Portugal, para a situação que o país atravessa, também contribuiu, com enorme peso, uma gigantesca burla chamada BPN. E o sector bancário, em geral, pesou também bastante nas contas, por não ter tido capacidade para responder à crise pelos seus próprios meios.

Neste contexto, admitir-se as prescrições de contra-ordenações aplicadas pelo Banco de Portugal a alguns banqueiros é um enorme escândalo, que o país não deve aceitar, procurando, no mesmo espírito das medidas excepcionais que tempos excepcionais exigem, soluções para não deixar, em caso algum, que estas sanções fiquem por aplicar. É manifestamente uma questão de honra. E regressar à honra é ainda mais urgente do que regressar aos mercados, pois sem ela, eles não nos valem de nada.

Seguro a propor ainda é pior que sem propor nada

por Zé Pedro Silva, em 14.03.14

Pára tudo, porque António José Seguro apresentou uma ideia, uma proposta, qualquer coisa. Calma, calma, calma. Não é uma proposta nova, porque eu creio que já o ouvi falar nisto há um par de anos. Mas pronto, pelo menos já diz qualquer coisa, mesmo que seja uma coisa requentada.

E é o quê? É a mutualização do subsídio de desemprego. E o que é a mutualização do subsídio de desemprego? É mais ou menos isto: A partir de uma determinada taxa de desemprego, a responsabilidade é da própria União Europeia. Seguro até fala em números, quando se refere à taxa. Diz "por exemplo, 7%". Como se vê, é uma proposta concreta: por exemplo, uma mutualização do subsídio de desemprego, por exemplo, se a taxa for, por exemplo, superior a 7.

Ora bem, segundo Seguro, seriam os países com taxas de desemprego mais aceitáveis a pagar os subsídios de desemprego dos países com taxas superiores a, por exemplo, 7%. Dá para acreditar numa coisa destas? Não dá. Mas calma, porque isto deve fazer tudo muito sentido. Vamos ver: Garante Seguro que, assim, a União Europeia daria "mais atenção a uma política económica robusta". O que é que isto quer dizer? Também não faço ideia. Será que, com medo de ter de pagar subsídios de desemprego num determinado país, iam lá endireitar a economia? E o que é uma política económica robusta?

Como é que o PS chegou a este nível? Um político que se assume como alternativa, quer ir pedir à Europa para lhe pagar os subsídios dos seus desempregados. Sim, porque se tivéssemos nós uma taxa de desemprego "mais aceitável" - como o próprio Seguro descreve - então teríamos de ser nós a pagar os subsídios dos gregos ou, nem é preciso ir tão longe, dos espanhóis, que têm taxas altíssimas. Mas pior, Seguro pede isso para ver se puxam pela sua economia, com política mais robustas. Confesso que isto até me parece uma institucionalização da Troika.

Com a breca. Há tanto por dizer e fazer em matéria de harmonização das políticas na Comunidade, particularmente no plano económico e fiscal, e Seguro sai-se com isto. E já não é a primeira vez.

A mão escondida por trás do manifesto

por Zé Pedro Silva, em 14.03.14

É importante discutir-se a dívida? A sua sustentabilidade? Soluções para reduzir o seu peso? Claro que sim. A dívida será por muitos anos o problema central das Finanças Públicas. Portanto, todos os contributos, mais ou menos notáveis, serão fundamentais nos próximos tempos para que o país consiga gerir a sua enorme dívida, com o mínimo de prejuízos para as pessoas e para a economia. Seria também muito importante, ao mesmo tempo, investigar-se aprofundada e imparcialmente a origem do problema, para que se encontrem mecanismos de travão.

Acontece que discutir agora o tema da reestruturação da dívida não serve a dívida nem o país. Serve apenas interesses políticos-partidários e de oposição ao Governo. O manifesto, sendo naturalmente bem feito e rigoroso do ponto de vista técnico - embora não livre de contraditório - não é sério. Só seria sério se os seus subscritores admitissem no texto que o interesse de colocar agora a questão é essencialmente prejudicar a actuação do Governo e contribuir para a sua queda. Isto porque nenhum dos subscritores pode ignorar - ainda menos tratando-se de pessoas tão entendidas na matéria - os efeitos de colocar nesta fase um processo de reestruturação da dívida em cima da mesa.

Entretanto, os defensores do manifesto têm aparecido indignados com a indignação que geraram. Já se fala até em liberdade. Como se o manifesto quisesse apenas, tão fofinho, debater um tema. Não, não é isso. E a indignação com a mão escondida por trás do manifesto é perfeitamente justificável. Não está em causa o tema nem os argumentos, porque deles o país não poderá fugir nos próximos tempos, mas apenas o evidente objectivo político-partidário deste manifesto em concreto. E isso vê-se, desde logo, pela quantidade de políticos entre os subscritores. Ora, uma coisa são técnicos outra coisa são políticos, ainda que sejam técnicos. Os políticos devem apresentar as suas ideias aos eleitores, não é aos governos, sob a forma de manifestos.

E a situação é particularmente estúpida na medida em que a reestruturação já está a ser discutida, desde o pedido de ajuda externa, e continuará naturalmente a ser, porque o problema da dívida não se resolve tão cedo. Este manifesto só consegue, portanto, uma crise política e talvez uma edição do programa Prós e Contras, na RTP. Para a dívida e para a discussão de soluções, pouco ou rigorosamente mais nada consegue, daquilo que já temos. É, por isso mesmo, apenas ruído, algazarra política.

Enfim, não tenho dúvidas de que o próximo documento dos 70 subscritores devia ser um pedido de desculpas. E não vale a pena grandes teatros com a liberdade de expressão e de opinião. O jogo tem de ser limpo. Ainda há dias se viu um jogador de futebol, que simulou uma falta, ir junto do árbitro, que tinha assinalado falta, dizer que não havia falta nenhuma. Pois bem, o que se pede ao grupo dos 70 é que se reconheçam a perfeita inutilidade deste manifesto, sem prejuízo da discussão política que terá de continuar a ser feita sobre as melhores soluções para enfrentar este monstro desta dívida.

O manifesto das 70 Ferreiras Leites

por Zé Pedro Silva, em 11.03.14

Está a ver aqueles bairros onde sempre que há confusão, já se sabe quem é que lá está metido? Pois é. Se Portugal fosse um bairro, sempre que há confusão já se sabe que está lá a dra. Ferreira Leite no meio.

Agora foi este manifesto a pedir a reestruturação da dívida. Felizmente estão consigo mais 69 Ferreiras Leites, porque às vezes uma não chega.

Digo isto porque não levo em muito boa conta a dra. Ferreira Leite. Passou pelas Finanças, não ficou na história. Despachou umas coisas mal despachadas, para corrigir défices com receitas extraordinárias. Foi atrás das empresas, tomando tudo por ladrão, e estrafegando-as.

Era essa a sua estratégia de combate à evasão? É capaz de fazer sentido. Acabando com as empresas, também se acaba com a evasão fiscal das empresas.

Mas olhe que este grupo de nabos, a brincar a brincar, já fez mais pelo combate à evasão fiscal neste país do que 70 Ferreiras Leites. Pelo combate à evasão fiscal e pelas Finanças.

Depois a dra. Ferreira Leite – provavelmente enganada pelos elogios constantes do dr. Pacheco Pereira e pela fé do professor Aníbal – ainda se fez ao piso para derrubar o senhor Sócrates. Logo a dra. Ferreira Leite, incapaz de vencer uma junta de freguesia, queria derrubar Sócrates.

O que sucedeu? Sócrates ganhou, claro. Mesmo assim conseguiu perder a maioria absoluta numa contenda consigo, o que de facto não abona muito a favor do menino de ouro do PS.

Mas a dra. Ferreira Leite nunca jamais e em tempo algum se devia ter candidatado, porque a dra. Ferreira Leite não tem perfil para ser líder. Tem perfil para fazer intrigas e conspirar, mas para liderar não. Queria suspender a democracia, arrumou com os seus adversários internos do Parlamento… isto não é uma líder, é uma pequena ditadora.

Agora, o manifesto. Quer reestruturar a dívida. Olhe, eu não percebo nada disto, mas creio que já li muitas explicações de muitos entendidos e parece que nós temos, de facto, um problema com a dívida. A dívida já tem sido reestruturada, mas os entendidos – mais uma vez – dizem que é preciso mais qualquer coisa.

Perante isto, parece consensual e até evidente que a dívida portuguesa vai precisar de um ajustamento. Mas qual a utilidade desse manifesto, sobretudo agora? Portugal está num momento crítico e aparecem 70 notáveis a dizer que esta dívida é insustentável. Obrigado, obrigadíssimo, muito obrigado, obrigado, a sério, muito obrigado.

Será que Portugal não pode tentar passar este processo de fim do programa de ajustamento, tentar estabilizar a sua situação, para começar a discutir, nas instâncias próprias, os problemas da sua dívida insustentável?

O manifesto serve então para quê? Para tramar ainda mais as contas ao país e dar razão aos 70 notáveis, não é? Querem que o país se espalhe ao comprido para serem então ainda mais notáveis. Mas não serão já suficientemente notáveis? Vejam lá bem. É que às vezes fica-se tão notável, mas tão notável, mas tão notável, que se dá a volta e a única coisa que fica notável é como é que conseguiram passar por notáveis.

Belmiro, veja o patrão alemão, não veja o trabalhador

por Zé Pedro Silva, em 09.03.14

Não será difícil ser muito rico em Portugal. Digo isto porque os homens mais ricos do país nem sempre parecem os mais perspicazes. Ser muito rico em Portugal deve ser, portanto, mais uma questão de sorte e de oportunidade.

Vem a isto a propósito dos comentários do engenheiro Belmiro de Azevedo sobre a produtividade dos portugueses. Parece que os alemães, numa hora, trabalham quatro vezes mais. Talvez trabalhem. Não digo que não. Estou absolutamente certo que, para o engenheiro Belmiro afirmar tal coisa, é porque sabe - com dados estatísticos, porque a produtividade mede-se - que é mesmo assim.

Mas porquê? - É a questão para um milhão de euros ou, pelo menos, para salários mais altos. Os portugueses são mais preguiçosos, estão mal habituados e gostam de viver à custa do Estado e dos patrões? É isto? Eu não acredito - e não acredito mesmo - que tenha sido o que o engenheiro Belmiro quis dizer, mas é o que parece e o engenheiro Belmiro já tem idade para saber que há certas coisas que não podem ser ditas levianamente, como por exemplo, esta ideia de que se os portugueses querem salários melhores, têm de trabalhar como os alemães, que em uma hora dão 4 a 0.

É que eu não percebo nada disto, mas a produtividade não é responsabilidade dos trabalhadores. É uma responsabilidade da direcção. E se os alemães são mais produtivos, provavelmente têm melhores empresários e a conversa começa a azedar para o engenheiro Belmiro, que é um dos maiores empresários portugueses e que pela dimensão da sua companhia, é também ele que marca o ritmo.

O engenheiro Belmiro saberá, com certeza, que estes dez milhões, se acordassem na próxima segunda-feira na Alemanha, trabalhavam tanto ou mais que os alemães. Tenho, porém, as mais sérias dúvidas relativamente à hipótese de alguns empresários portugueses sobreviverem em economias como a alemã.

Por outro lado, das palavras do engenheiro Belmiro - e deixando nota de que só ouvi a parte que a comunicação social quis que eu ouvisse - infiro que os trabalhadores do grupo Sonae não são produtivos. São produtivos para a média nacional, mas também não chegam aos calcanhares dos alemães. Ora, o engenheiro Belmiro, pelos vistos, acha que a culpa é deles, que nasceram assim, preguiçosos e calões. Já o engenheiro Belmiro deve achar-se perfeitamente ao nível dos empresários alemães, agarrado apenas, por contingências da vida, a esta cambada de lesmas que vivem em Portugal.

Mas o pior é que existem em Portugal alguns exemplos de fábricas multinacionais onde o drama da produtividade não se verifica, sendo a mais conhecida, naturalmente, a Autoeuropa. Repare-se que é uma fábrica em território português, sob as leis portuguesas, com trabalhadores portugueses. A única coisa que a Autoeuropa não tem, assim de repente, é um empresário (accionista) português.

Perante isto, talvez fosse já tempo dos empresários portugueses, quando procuram culpados pelos fracos resultados, não olharem tanto para baixo, mas mais para a frente e para os lados. É claro que os empresários podem continuar nesta estratégia de castigo, reduzindo os salários dos trabalhadores até que eles comecem de uma vez por todas a trabalhar, mas isso vai correr muito mal, porque não é aí que está o problema.

Enfim, é também à conta destas coisas que se percebe a debilidade da economia portuguesa, sobretudo em matéria de investimento. Se eu pensar como um investidor, eu não vejo um único motivo para me interessar por companhias que andam nesta vida. Estas empresas europeias em que o patrão ainda anda às turras com os trabalhadores porque não vergam a mola, não têm o mínimo interesse. Ou invisto no valor acrescentado e na qualidade ou na política dos baixos salários. Mas para isso invisto na China, não vou andar aqui a brincar aos berlindes.

A curiosidade que as Europeias não despertam

por Zé Pedro Silva, em 07.03.14
europa

A coligação de direita às europeias lembrou-se de apresentar o seu manifesto no Twitter. Mais cool não podia ser. Acontece que esta tentativa levemente ridícula - sobretudo na comparação com os 101 dálmatas - não chega para suscitar interesse por estas eleições. O facto de colocarmos as coisas nas redes sociais não é suficiente para lhes darmos graça. Bem sei que se partilham as coisas mais insignificantes, mas essas coisas insignificantes têm que ter algum interesse genuíno.

As eleições europeias, para os portugueses, não têm e o problema não está na divulgação. Apresentar o manifesto no Twitter ou no edital da sede do PSD, é completamente indiferente.

A Europa não diz nada aos portugueses porque é só mais um burocrata. Bem podem os políticos fazer aqueles enormes discursos, épicos, históricos, a Europa, a Europa!; que não se conhecendo, na prática, vantagens, ninguém quer saber daquilo para nada.

Com a breca, o que é que eu estou para aqui a dizer?... não se conhecendo vantagens? Do projecto europeu? Serei eu doido varrido? Estou a falar da Europa, caraças, da Europa, da União Europeia!

Sim... e?

Milhões e milhões de euros de fundos comunitários deitados ao mar. Cerco à actividade económica, particularmente nos sectores de actividade agrícola, com enormes e evidentes vantagens para os nossos parceiros/concorrentes europeus. O que nos deu a Europa, para além de um conjunto de legislação asséptica? Muito pouco.

Mesmo na crise que o país atravessa, foram bem visíveis as dificuldades sentidas pelas normas comunitárias e pela moeda única. Não estamos unidos, estamos atados à Europa. Entregámos a concessão do país, da sua economia, pelos milhões dos fundos comunitários. Proporcionalmente falando, vendemos melhor a EDP.

O manifesto que os portugueses querem, portanto, nestas eleições europeias, é um manifesto que jure a pés juntos que vai partir aquilo tudo. Um manifesto que vá para Bruxelas pedir contas: o que recebeu Portugal da Comunidade, ao longo destes anos? E o que deu?

Os portugueses, creio eu, não querem mais daqueles discursos épicos sobre a Europa, ainda que seja no Twitter. Só querem saber para que é que aquilo funciona. Assim mesmo, como se fosse um gadget: Isto serve para quê?

É evidente que os políticos vão começar por fazer um sorriso de evidência e um olhar de compaixão pelo povo, que não consegue perceber a grandeza do projecto europeu. Depois vão lembrar que, se não fosse a Europa, estaríamos muito pobres, muito brutos e com a roupa de há dois dias. É então preciso lembrá-los que estamos muito pobres, muito brutos e com a roupa de há dois dias. Mas não se pode fumar nos restaurantes, o que, reconheço, foi a Europa que nos deu.

Explica-se, porém, e não é complicado, a paixão dos políticos pela Comunidade. É dinheiro fácil. É viver de rendas. Eles lá fazem tudo e nós só temos de ir mantendo aqui as coisas. Para além disso, a Europa paga muito bem aos seus vendedores. Não haviam os discursos de ser sempre épicos.

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