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Lóbi do Chá

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Talvez Gaspar tivesse regressado

por Zé Pedro Silva, em 23.09.13

A cobardia ainda é o que mais ordena. Vítor Gaspar afirmou em tempos que hoje seria o dia do regresso de Portugal aos mercados. Depois dessa declaração, toda a sua estratégia - toda a sua estratégia - foi destruída. Não interessa agora discutir se a estratégia era boa ou má. A verdade é que a estratégia de Vítor Gaspar não foi para a frente.

 

Foram aliás tantos os bloqueios que Vítor Gaspar, com uma grandeza muito rara na vida política portuguesa, apresentou a sua demissão. A maioria dos políticos encontra terceiras vias para se manter no poder. Gaspar quis sair porque o seu caminho não tinha o apoio da sociedade, dos tribunais e até lhe faltou apoio de alguns membros do Governo, que não quiseram perder o ruído populista das ruas.

 

Perante isto, falar-se hoje em falha no regresso aos mercados e lembrar o calendário de Gaspar é uma cobardia sem nome, que já vem na senda daquela anedota de ele não acertar uma conta. Uma política de terra queimada que ignora os desvios nas previsões que são um património imaterial deste país desde há várias décadas. Mas só em Gaspar foram exaustivamente lembrados, mesmo quando eram públicas e conhecidas todas as correcções de trajectória para responder à pressão da sociedade e dos tribunais de interpretação. Nestas condições, acertar em previsões não é difícil, é impossível. Mas quando o país não estava mergulhado na crise em que está hoje e certos chefes de Governo, genuinamente optimistas, anunciavam crescimento económico com a recessão a bater-lhes à porta, ah, isso era a crise internacional e a instabilidade dos mercados.

 

Se há alguma pergunta que se deve fazer sobre o dia de hoje e Vítor Gaspar, é se o país teria mesmo regressado hoje aos mercados com Vítor Gaspar.

 

Não vamos saber. Entretanto, o rectângulo caminha outra vez a passos gigantes para a consolidação da desgraça. A culpa? É de três. É do Governo, que provocou uma crise de confiança e credibilidade inútil e cuja emenda ainda foi pior que o soneto. É da oposição, cobarde e cínica, apostada no quanto pior melhor, irresponsável quando foi de atirar o país para a bancarrota e irresponsável para ajudar a tirá-lo de lá. E é dos tribunais de interpretação, que, verdade seja dita, graças a eles e às suas estudiosas interpretações, não há injustiças neste país.

 

Felizmente, há uma garantia cultural que nos permite prever o rumo com satisfação. É que os portugueses gostam de ser enganados e de viver nesta palhaçada. E também gostam muito de ser pobres, talvez porque nunca os deixaram ser ricos e quem não vê é como quem não sente. A verdade é que esta situação em que o país se encontra seria muito mais difícil de suportar se soubéssemos o que é um país justo e próspero, porque se alguma vez tivéssemos sido um país justo e próspero, provavelmente não estaríamos nesta situação.

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