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Lóbi do Chá

Lóbi do Chá

Não vai chamar porco ao patrão?

por Zé Pedro Silva, em 16.10.13

Ontem fui atendido por uma senhora brasileira, em Cascais. Em conversa, disse-me que faz anos no próximo domingo. E logo a seguir disse-me que ficará desempregada no sábado. E riu-se. Queixou-se apenas durante meio segundo e foi só um encolher de ombros. «Fecha-se uma porta, abre-se uma janela», disse então e com esta é que partiu a loiça toda. 

 

Ainda pensei que tinha ouvido mal ou que a janela que ela ia abrir era para se jogar. Mas não. Ela é mesmo optimista e bem disposta. E até aqui, embora notável, tudo normal. O que mais me surpreendeu foi ela estar a representar a empresa que a vai despedir com o zelo que muitas vezes nem tem quem acaba de ser contratado. 

 

A maioria das pessoas, naquela situação, elucidar-me-ia sobre o porco do patrão e onde ele rebenta o dinheiro da empresa. Ou pelo menos deixava sair uma indirecta. Nada. Um processo até se atrasou um bocado e ela pediu desculpa como se a culpa fosse dela. A maioria das pessoas elucidar-me-ia sobre a porcaria de equipamento que o porco do patrão compra para poder rebentar o dinheiro da empresa em... e voltava a repetir tudo. 

 

Bom, não concordo minimamente com aquela ideia de que as pessoas têm de ser sempre optimistas e aceitar tudo. Muito menos concordo com aquela teoria do rapaz das camisolas - naquele programa deprimente da RTP - que disse que ganhar 500 euros é melhor do que estar no desemprego. Falso. Provavelmente, para ganhar 500 euros a trabalhar de sol a sol e não existindo perspectivas de progressão, é preferível estar no desemprego. E este ponto é mais importante do que parece. O rapaz das camisolas pode ainda não saber o que diz, mas há muitas pessoas a pensar como ele e por isso é que se paga miseravelmente. A ideia de "toma lá 500 euros e dá graças a Deus" é perigosíssima. 

 

Também não concordo com o optimismo que o Governo tentou impor, através de uma máquina patética de promoção da alegria no desemprego. Ironicamente, o embaixador dessa máquina acabou por ser dispensado pelo Governo, o que deve ter sido uma alegria naquela casa. 

 

Em todo o caso, há mesmo pessoas muito mais interessantes, sérias e trabalhadoras do que outras, como aquelas que deviam ser obrigadas pelo Tribunal a manter-se a uma distância mínima de 500 metros de qualquer ofício. Esta rapariga brasileira foi um exemplo disso e estou absolutamente certo de que no domingo já está de janela aberta. 

 

Eu não a posso contratar - mais perto está ela de me contratar a mim - mas fá-lo-ia com o entusiasmo de quem deu com um achado. Et voilà

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