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Lóbi do Chá

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Ensaio tardio sobre A Gaiola Dourada

por Zé Pedro Silva, em 30.10.13

 

Já muito se falou sobre o filme A Gaiola Dourada. Acho até que já deve estar para sair do cinema. Se é que já não saiu. Mas ocorre-me falar agora. Creio que ainda vou a tempo. Falar sobre o E Tudo o Vento Levou seria mais dramático.

 

A Gaiola Dourada é um excelente filme. A todos os níveis. Começa por ser um bom filme enquanto filme. Depois, também é uma boa história. E por fim é uma saída diplomática mais eficiente que milhares de horas de discursos e centenas de visitas de chefes de Estado.

 

Confesso que não sei se este filme é mais português ou mais francês. Aparentemente é um filme português dirigido aos franceses. Isso explica-se pela preponderância do francês nas falas, quando mandava a lógica que o francês fosse esporádico.

 

Como seria de esperar, algumas particularidades da cultura portuguesa representada na película não foram do agrado de alguns portugueses. Mas a vida é como é e os portugueses são o que são. Como os espanhóis são o que são. E os ingleses. E os franceses.

 

A verdade é que o filme retrata bem os emigrantes portugueses em França, ainda que exista hoje em dia uma emigração nova que está longe desta imagem. Bom, mas isso será outra história. A história dos cérebros portugueses a brilhar por esse mundo fora será feita um dia. Esta, representada em A Gaiola Dourada, é fidedigna, tem graça e não ofende ninguém. Antes pelo contrário. Os portugueses só devem ter orgulho nos seus emigrantes, pessoas em geral muito sérias e muito trabalhadoras, cuja imagem nos países que os acolhem está muito longe da de outros povos emigrantes, com gravíssimos problemas de adaptação e péssimos registos ao nível da criminalidade.

 

Lembro-me, por exemplo, do que foi a vaga de emigrantes de leste na Suíça. Foi um pesadelo para os suíços. As coisas são como são. Somos todos iguais uns aos outros, mas há de facto uns melhores que outros.

 

Todavia, devo confessar que também não gosto particularmente daquela imagem dos portugueses que preferem jantar no sofá a ver o Benfica, em vez de aproveitarem o fim-de-semana num hotel de luxo, que foi oferecido pela filha. Também não gosto de ver o português que vai ao stand da Porsche e pergunta ao vendedor se pode pôr reboque. Muito menos gosto da postura do vendedor, que despreza o cliente português. E custa-me ver o namorado francês que tem de dizer à namorada portuguesa que ele é mais português que ela, porque a sente com vergonha da sua cultura.

 

Pode ser levemente desconfortável, mas a imagem é fiel e, nessa medida, A Gaiola Dourada é um bom filme. Sobretudo porque constrói a história com humor. Tudo aquilo envolto em drama seria muito pior que dramático.  

 

É muito frequente, no cinema, representar-se os tiques de uma determinada cultura. Quantas vezes os norte-americanos não exibem nos seus filmes aquela imagem da classe média que faz o churrasco nas traseiras, todos vestidos com camisolas de basquetebol? Com essa imagem, nós rimos. Mas quando é a nossa imagem, nós choramos.

 

A Gaiola Dourada é um excelente filme. Uma história divertida, provocadora e que fez mais pelos portugueses em França do que quatro décadas de diplomacia. Nós somos aquilo que somos e A Gaiola Dourada também é sobre aquilo que nós também somos. E como está bem feito, só temos de nos divertir.

 

 

[Imagem e vídeo via página de A Gaiola Dourada.]

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