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Lóbi do Chá

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A diferença entre um jornalista e um espantalho

por Zé Pedro Silva, em 24.03.14

Não assisto jamais aos comentários políticos de José Sócrates, pois não acho admissível que alguém que foi primeiro-ministro há tão pouco tempo e com evidentes responsabilidades - para o bem e para o mal - pela situação do país, se sente na televisão, aos domingos, a comentar a política nacional. Isto é, aliás, universalmente anedótico.

Acontece que neste domingo, talvez tenha sido interessante assistir ao comentário político de José Sócrates, pois o jornalista José Rodrigues dos Santos não aceitou fazer de biombo e deu utilidade ao espaço informativo, confrontando o comentador com o anterior primeiro-ministro, que calha ser a mesma pessoa.

Então José Sócrates quer ser comentador, mas não quer comentar o que dizia o Governo anterior, que por acaso era o seu? Como é que podemos ter comentário político sem um enquadramento? Só numa situação: Se o comentário político não for comentário político algum, mas apenas um espaço de oposição e defesa pessoal, como é manifestamente o caso. Tanto quanto sei - mas admito que sei pouco, corrijam-me se estiver enganado - Sócrates não faz comentário político, defende-se apenas, todos os domingos, com ataques. É isto o programa de José Sócrates na RTP. Não é comentário político.

Neste contexto, considero o papel de José Rodrigues dos Santos irrepreensível, porque isto é verdadeiramente isenção. Ao confrontar José Sócrates, ele não está a acusá-lo nem tão-pouco passou à figura de adversário. José Rodrigues dos Santos fez uma coisa muito mais importante, que foi dar oportunidade a José Sócrates de se explicar, de se defender e de comentar a posição do Governo anterior, que por acaso era liderado pelo agora comentador.

Isto é isenção e a RTP acaba por praticamente se limpar do escândalo que é o espaço de comentário de José Sócrates, bastando para isso que o jornalista tenha sido jornalista. Não foi apresentador de televisão.

Dir-me-ão que só digo isto porque não gramo a figura, como sempre se diz de quem critica José Sócrates. É sempre ódio. Mas não é verdade, porque não sou dos que têm ódio ao ex-primeiro-ministro. Entendo que fez coisas notáveis. Defendi-o aqui várias vezes e em diversas matérias. E se for preciso, volto a defendê-lo nessas matérias com a mesma convicção. Mas não é isso que está em causa. Não é o julgamento político de José Sócrates, porque esse deve ser feito pelos eleitores. É uma questão de princípio, que vale para José Sócrates como para todos os ex-governantes, a maioria naturalmente com menos relevância, da esquerda à direita, que também aparecem a comentar no dia seguinte como se nada fosse.

Já aqui defendi, em tempos, que os políticos não devem comentar a política. Devem ser entrevistados, devem ser ouvidos, mas não devem ser comentadores. Ou são políticos ou são comentadores. Não se pode pedir a alguém que é manifesta e declaradamente faccioso para ser imparcial e equidistante. E a culpa nem será desse alguém, na minha opinião. A culpa é de quem lhe pediu tal coisa tão impossível.

O meu ponto fundamental, portanto, é o espaço travestido de comentário político. O comentador político José Sócrates não pode estar imune a 6 anos da história recente do país, com evidente influência no presente. Mas se alguém fala no período em que governou, que foi praticamente ontem, Sócrates fica danado, porque não pode ser, há um escudo. Um cordão sanitário. É indelicado falar a José Sócrates em José Sócrates. É uma ofensa confrontar-se José Sócrates com José Sócrates. É mau jornalismo perguntar ao comentador político José Sócrates pelo primeiro-ministro José Sócrates. Sócrates não quer falar de Sócrates, só quer falar de Passos, Portas, Maria Luís Albuquerque e Cavaco Silva. Sócrates só comenta estes sujeitos e se tiver de falar de Sócrates é só para dizer que fez tudo o que estava ao seu alcance, pobre diabo, para salvar os portugueses desta sorte, mas a direita estragou tudo.

Pois, mas não pode ser, porque isso não é comentário político, é política. E uma coisa é política, outra coisa é comentário político. Sócrates continua a fazer apenas política. José Rodrigues dos Santos lá conseguiu, com alguma coragem, obrigar o comentador político a fazer um bocado de comentário político, já que é isso mesmo que ele quer. E a diferença entre um jornalista e um espantalho, é esta. José Rodrigues dos Santos é jornalista.

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