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Lóbi do Chá

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A praxe não existe

por Zé Pedro Silva, em 29.01.14

Está um país a discutir, há semanas, as praxes, que é um problema que não existe. Ou melhor, ele existir existe, mas não devia existir. Já explico. Mas antes, é preciso também lembrar que uma parte substancial da força deste debate são os artigos apaixonados dos comentadores que se aproveitam do mediatismo do tema para brilhar. Depois da desgraça do Meco, houve ali uns dias em que esteve tudo calado, a ver. Depois alguém lá começou a bater nas praxes. Aquilo pegou e então foi uma perfeita e completa tromba de água de artigos sobre as praxes. Lá tinham de aparecer também os políticos, como por exemplo o Bloco de Esquerda, que hoje deu espectáculo no Parlamento sobre as praxes. 

 

Ora bem, o problema das praxes não existe. Estamos no plano das liberdades. Se alguém quiser praxar, se alguém quiser ser praxado e se o estabelecimento, seja a universidade ou o café em frente, permitir a praxe, então não há qualquer questão a debater. Se algum destes três não quiser uma destas coisas, então chama-se a polícia, porque neste país quem não quer praxar não pode praxar, quem não quer ser praxado tem o direito de não ser praxado e um estabelecimento pode recusar praxes nos seus espaços. 

 

É evidente que o praxado pode não conseguir recusar a praxe por se encontrar num estado de sujeição e pode mesmo estar a ser coagido. Tudo contra a lei e as autoridades devem intervir. Quem praxar nestas condições pode ir parar à cadeia. E no caso de uma universidade, se a praxe ocorrer nas suas instalações, deve ser responsabilizada por não ter chamado a polícia quando percebeu que havia pessoas a serem humilhadas, agredidas e ofendidas contra a sua vontade. 

 

Sobre o que se passou no Meco, é isso apenas que se tem de apurar. Estavam lá pessoas contra a sua vontade? Então trata-se de um crime e é apurar a responsabilidade do sobrevivente. Mas se a investigação conclui que não estava lá ninguém contra a sua vontade, então foi um acidente. Um acidente lamentável, mas que não passa disso. 

 

Ou seja, não se pode pegar no acidente do Meco - admitindo que se trata de um acidente - e proibir todo o mundo de praxar e de ser praxado. Se no norte, por exemplo, alguém quiser pintar a cara de um caloiro e se o caloiro até achar graça, não é por causa da desgraça do Meco que essa palhaçada deve ser proibida. As pessoas têm a liberdade de praxar e de ser praxadas, por mais estúpida que a actividade seja. 

 

Falando pela minha experiência, fui praxado. Uma coisa simples. Sem graça. Foi tudo muito chato, mas pronto, foi o que foi. A qualquer momento, se quisesse, tinha mandado aquilo tudo bardamerda e saía. Mas fui ficando. Fiquei a odiar praxes como sempre odiei, mas não consigo fazer a mínima relação entre o que se passou no Meco e o que se passou na minha faculdade. A proibir aquilo é só porque não acho piada nenhuma. Mas para isso também proibia o hóquei em patins. 

 

Enfim, as praxes não existem. Não existem enquanto instituição. As praxes são uma festa, uma brincadeira. Ninguém pode ser obrigado a participar nessa festa e nessa brincadeira. Se alguém for obrigado, trata-se de pelo menos um crime - embora eu veja desde logo três. Se acontecer alguma desgraça no decorrer dessa obrigação, trata-se de mais um crime. E assim sucessivamente. Mas não há mais nada a discutir. Muito menos se as praxes devem ou não ser proibidas. E as festas do caloiro? Devem ser proibidas? E as viagens de finalistas? E a caça ao javali? E as orgias sexuais? E os recordes do Guiness? 

 

Deixemo-nos de tretas. Se alguém é obrigado a ficar onde não quer, é sequestro. Se alguém é obrigado a fazer o que não quer, é coacção. Se alguém vai desta para melhor no decorrer do sequestro e da coacção, é homicídio. Foi no decorrer de uma praxe? Isso não interessa nada. Até podiam estar a bordar.  

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