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Lóbi do Chá

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Debates ou colectâneas de monólogos?

por Zé Pedro Silva, em 04.04.14

Com o advento destas maravilhas que são as redes sociais, o debate público - seja ele qual for - é hoje muito mais amplo. Na política, então, nem se fala. Ainda há duas décadas, só chegavam aos eleitores dez a quinze minutos de matéria política por volta das oito e vinte da noite, acompanhadas no dia seguinte por algumas notícias nos jornais. Nada mais. Hoje há muito debate, muita conversa, horas e horas de política. Na televisão, nos rádios, nos computadores, até nos telemóveis.

Dir-se-ia que o debate está, portanto, muito mais rico. Mas não é verdade. Quando os agentes políticos querem alcançar o poder enganando as pessoas - e é isso que tem acontecido em Portugal e é perfeitamente documentável - bem podemos ter todos os meios, que não se debate nem se discute coisa alguma.

Vem isto a propósito dos vídeos que os partidos e as facções agora publicam nas redes sociais, com os discursos, intervenções ou participações em debates dos seus representantes. O princípio da coisa é naturalmente bom. Se alguém não apanhou o debate ou a intervenção em directo, pode ver e ouvir depois. Acontece que eles só publicam as intervenções dos próprios e na maioria dos casos trata-se de perguntas ou respostas ou até mesmo um diálogo. Os vídeos servem então só para os apaniguados baterem palminhas.

"Muito bem, muito bem, é isso mesmo" e não interessa mais nada. Mesmo quando o "muito bem" era, por exemplo, uma pergunta, donde o que mais interessava era, justamente, a resposta, pois só depois dela se poderia verdadeiramente elogiar a beleza da pergunta. Mas não. Nesta pobreza de espírito que é o debate político em Portugal, a pergunta é suficiente.

«Diga lá que horas são, senhor deputado, diga», desafia alguém e é a festa total, ainda que o interlocutor responda também imediatamente que no relógio dele são nove e um quarto, porque mais à frente aparece outro excerto do vídeo, onde o primeiro volta a dizer «porque o senhor deputado nem conseguiu dizer há pouco que horas eram, quanto mais agora»; e o outro volta a dizer as horas, que neste caso já são nove  e meia, mas essa resposta já só vai ser ouvida pelos apoiantes dele, no vídeo do partido dele, e nesse caso também não interessa, porque mesmo que ele não soubesse ver as horas, não deixariam de enaltecer as suas qualidades.

Isto é absolutamente sintomático sobre o baixíssimo nível em que se encontra a política portuguesa. E são todos responsáveis, não é só a rapaziada do partido ou do marketing político, porque os próprios intervenientes, os políticos, tinham a obrigação de exigir que ficasse também no vídeo a resposta ou a intervenção do adversário. Porém, parece que também se satisfazem mais ouvindo-se apenas a si. E assim não admira que todos ganhem todos os confrontos.

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