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Lóbi do Chá

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Não deixem de ser polícias

por Zé Pedro Silva, em 06.03.14
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Sou dos que defendem que os polícias não são bem tratados em Portugal. Não é de agora, é de quase sempre. Remunerações baixas, falta de formação e péssimas condições de trabalho. A luta deles é, por isso, na minha opinião, perfeitamente justificada, sobretudo porque  a missão que desempenham tem uma responsabilidade acrescida. Eu logo à noite não vou correr atrás de um ladrão, não vou mandar parar um carro suspeito, não vou separar uma mulher do seu companheiro. Eu logo à noite vou estar a escrever neste mesmo computador e se alguém me tentar assaltar – ou se a minha mulher me mandar com uma loiça à cabeça – é a polícia que eu vou chamar.

Isto tem de ser respeitado. Esta missão de verdadeiro serviço público tem de ser recompensada. Recompensada pelo Estado, pelo poder político e pelos cidadãos.

Acontece que esta responsabilidade tem dois sentidos. Da mesma forma que defendo que os polícias devem ser tratados com especial deferência, pela natureza das suas funções, também entendo que a sua luta não pode ser igual à de outros profissionais, com menos responsabilidades no que à ordem pública diz respeito.

Esta ameaça à estabilidade que é alimentada por alguns polícias sempre que há manifestações – como hoje – é uma ofensa à profissão e que os fará perder um aliado importante no braço de ferro com o Estado: a sociedade.

Bem sei que os agricultores já destruíram leite para chamar a atenção do país para os problemas do sector, mas os polícias não podem pôr a cidade em pé de guerra, até porque há outras formas de luta, porventura mais sérias para o poder político. Uma greve de zelo, por exemplo. Uma greve permanente às multas e às diligências simples.

Sobre este assunto, encontro no Expresso algo absolutamente extraordinário. Diz uma agente especial da polícia que “eles têm o poder, mas nós somos o poder”. Creio que não há afirmação mais grave para um agente da autoridade e só há uma sanção possível para um profissional que afirma tal coisa.

A afirmação pode ser ingénua e até ignorante, mas assim como as pessoas não podem invocar o desconhecimento das leis – e os polícias sabem bem disto – muito menos os polícias podem demonstrar o desconhecimento não só das leis mas dos princípios mais básicos de um Estado de Direito democrático.

Compreendo, respeito e apoio a luta dos polícias. Mas peço-lhes que não deixem de ser polícias.

[Imagem: Público, via Google Images]

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