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Lóbi do Chá

Lóbi do Chá

Nem melhor nem pior, o país está assim-assim

por Zé Pedro Silva, em 27.02.14
Mas continua lindo, como se pode ver por Cascais, ontem...

 

Talvez seja indelicado - para não dizer pior - afirmar que o país está melhor. É possível perceber a ideia e até pode fazer algum sentido se a contextualizarmos no plano da imagem internacional ou da confiança na economia, mas do ponto de vista das pessoas - do povo - o país está pior. Está pior porque há mais desemprego. Está pior porque há mais dívida. Está pior porque há mais pobreza. Está pior porque há menos direitos. Em praticamente todas as variáveis, o país está pior. Até no clima, pois já não se via um Inverno assim há muito tempo. 

 

Contudo, é importante referir que estranho seria se o país estivesse melhor. É que um país entrar em bancarrota e ainda ficar melhor é coisa que nunca se viu. Mesmo a Irlanda - que volta a ser exemplo e modelo - não estará melhor do que estava. Como se costuma dizer: está diferente. 

 

O primeiro-ministro foi, portanto, nabo, ao sugerir ao país que ele está melhor. Num círculo pequeno e específico, até o poderia ter dito. Por exemplo, para os mercados internacionais, para a confiança externa, não há qualquer dúvida de que o país está melhor. Sendo certo que esta melhoria pode passar a nova desgraça num espaço de horas, porque os mercados internacionais e os níveis de confiança são mais sensíveis que nós quando estamos com um escaldão. Mas para esses - e esses importam - na data e à hora a que escrevo - o país está melhor. 

 

Acontece que para as pessoas  - e essas ainda importam mais - não está nada melhor. Está muito pior. Está como muitos especialistas, gente tecnicamente qualificada, durante décadas avisou que o país ia estar. Bateu tudo certo. Como um sismo: sabia-se que ia acontecer, só não se sabia quando. 

 

Naturalmente que sem crise de dívidas soberanas, com uma Alemanha mais solidária e uma outra Europa, talvez até pudesse não ter existido resgate financeiro e podíamos estar hoje aparentemente melhor ou aparentemente na mesma. Só mudava, porém, uma coisa: a data do sismo. 

 

Bom, mas se podemos discutir o país, nomeadamente se ele está melhor, pior ou assim-assim, já quanto à oposiçao não restam dúvidas. Está muito pior. 

 

Por exemplo, li há pouco um comentário do Partido Socialista sobre o congresso do PSD. Dizem os socialistas que o PSD fechou-se no congresso a rir-se do país. Este estilo é perfeitamente aceitável a um Bloco de Esquerda, a uma CDU ou até a um CDS. Já não é tão normal que o maior partido da oposição e a quem caberá, mais cedo ou mais tarde, a tarefa da governação, ande nesta vida.

 

Há um mar de críticas que se podem fazer ao PSD e ao Governo. Mas dizer que eles se estão a rir do país é de uma enorme falta de carácter, para não dizer outra coisa, acabada em utice.  

 

Já durante o fim-de-semana, depois de encerrado o congresso do PSD, foi possível ouvir o líder do PS, aos gritos, a fazer a única oposição que sabe, que é falar dos pobrezinhos. Os pobrezinhos são cada vez mais, é verdade. E os pobrezinhos têm de ser a principal preocupação de quem trabalha em São Bento, mas não se ajudam os pobrezinhos falando neles. Seguro acredita que vai resolver a pobreza invocando-a em todos os discursos. Mas está enganado. O que os pobres querem é propostas alternativas. Mas propostas alternativas mesmo, porque dizer que se tem propostas alternativas não é o mesmo que tê-las. 

 

Os pobres não querem a falsa comiseração do António José Seguro. Não querem aquela patética piedade com que adorna sempre as suas palavras. Os pobres querem que eles seja honesto, franco e sério. Querem que ele diga qual é a sua estratégia, que apresente a sua linha de orientação política, para então aí os pobres saírem todos à rua, atrás dele, com a bandeira do seu partido, para derrubar estas políticas. 

 

Mas qual quê!? António José Seguro e o seu PS são uma assombração de Bloco em ponto grande. Uma oposição feita de demagogia em forma de frases feitas e sonantes para poupar trabalho aos jornalistas na elaboração dos títulos. Há uns meses era o segundo resgate que era inevitável, agora exigem uma saída limpa. E não se demitem, o que é espantoso. Aquela direcção que apostou forte no segundo resgate e que por causa disso exigiu a demissão do Governo, devia agora demitir-se e dar ao partido a oportunidade de escolher uma nova liderança, um novo caminho, uma nova estratégia. Nova, não. Uma estratégia, porque até agora não houve nenhuma.

 

Ao contrário do Governo, diga-se, porque tem muitos defeitos - imensos defeitos - mas lá que tem estratégia tem. Podemos criticá-la. Até o devemos fazer. Mas tem. E tem uma estratégia que, não obstante o populismo e a demagogia das campanhas eleitorais, corresponde àquilo que se podia esperar deste Passos Coelho. Quem estava à espera de outra coisa, não estava atento. 

 

Resumindo, o país em geral está pior, pois claro que está. Se podia estar melhor do que está hoje? Talvez sim, é uma discussão interessante. Se podia estar melhor do que em 2011? Não, não podia. Mas de lá para cá, o que está mesmo uma desgraça é a oposição. E isso é uma desgraça para o país. 

 

Não tenho dúvidas de que o maior problema político de Portugal, neste momento, não é o Governo, é o Partido Socialista. É o Partido Socialista que tem de mudar, porque os portugueses - onde se incluem os pobrezinhos que Seguro vê todos os dias - precisam de uma oposição. Mas uma oposição à séria, não é esta brincadeira. 

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