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Lóbi do Chá

Lóbi do Chá

Um Porsche ou um Dacia?

por Zé Pedro Silva, em 18.03.14

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De vez em quando, lá vem a notícia do aumento das vendas de carros de luxo, para ficar tudo danado, a resmungar. Pela minha parte, sempre que vejo um carro de luxo ao lado, só me dá vontade de apitar e dizer "obrigado, obrigado por ter comprado essa máquina de comer impostos e só espero que quando sair o modelo novo, vá a correr comprar".

Vamos lá ver uma coisa. Um Porsche Cayenne Turbo S Tiptronic custa 196.364,74€. Destes, 32.096.13€ são ISV, 36.718.31€ são IVA e 806,51€ são IUC. Ora bem, 69.620,95€ são impostos. Se o cavalheiro ou a madame tivesse optado por um Dacia Sandero, tinha largado 2.043€.

Depois há a gasolina. O Porsche gasta 15 litros/100. Num ano, faz, por exemplo, 25 000 km, que são então 3750 litros. Por aqui a gasolina está a 1.534. São então 5.752,5€ em gasolina, sendo que cerca de 56% deste valor são... impostos. Mais ou menos 3.200€. O dono do Porsche paga mais impostos em gasolina por ano do que o dono de um Dacia Sandero a comprá-lo.

É certo que na compra do Porsche voam cerca de 127 mil euros para a Alemanha - menos a margem do importador. Mas se pensarmos que é para o grupo no mundo que mais investe em Portugal, talvez meta menos dó.

Entretanto, sim, é verdade: O Porsche larga para o ambiente 270 gramas de CO2 e isso representa um custo para o país. Mas o Dacia larga 116 gramas. Agora recordemos que para o Estado receber de impostos em Dacias o valor que recebe de um Porsche Cayenne Turbo S Tiptronic, têm de se vender 34 Dacias. 34 Dacias Sanderos são 4 quilos de CO2 por quilómetro.

Resumindo, quando alguém compra um Cayenne Turbo, o Estado recebe 70 mil euros, mais uma renda anual em gasolina e IUC à volta dos 4.000€. Se esse alguém compra um Dacia, o Estado recebe 2 mil euros, mais uma renda anual de 800€ e é se esticarem o Dacia.

Claro que podem sempre dizer que o ideal seria comprar o Dacia e investir o dinheiro. Sim, mas se alguém escolhe um Dacia em vez de um Cayenne Turbo, provavelmente vai investir em selos.

Prescrições e o regresso à honra

por Zé Pedro Silva, em 15.03.14

Esta crise provou, mais uma vez, que em alguns momentos da história são necessárias medidas excepcionais. Medidas que, muitas vezes, quando não ultrapassam os limites da lei, pelo menos pisam-nos. Para o país não cair numa situação de bancarrota, já ninguém tem dúvidas de que foi necessário recorrer a medidas extraordinárias. Decisões que podiam ter sido evitadas e que jamais seriam tomadas se não existisse uma necessidade extrema. Algumas dessas medidas são até de carácter permanente, na medida em que se concluiu que estavam também na origem do problema. Por exemplo, nenhum português quererá volta a ver titulares de cargos públicos a receber, ao mesmo tempo, ordenados e reformas douradas, como fizeram algumas altas figuras da política portuguesa e que só num país em que o poder político não é responsabilizado, podem continuar hoje em exercício como se nada fosse. Foi nas costas do povo e dos contribuintes, que o poder político permitiu pagar-se com salários e  reformas.

Regressando às medidas excepcionais, elas devem ser mais amplas que os ajustamentos financeiros, porque há de facto mais vida para além das finanças públicas. Em Portugal, para a situação que o país atravessa, também contribuiu, com enorme peso, uma gigantesca burla chamada BPN. E o sector bancário, em geral, pesou também bastante nas contas, por não ter tido capacidade para responder à crise pelos seus próprios meios.

Neste contexto, admitir-se as prescrições de contra-ordenações aplicadas pelo Banco de Portugal a alguns banqueiros é um enorme escândalo, que o país não deve aceitar, procurando, no mesmo espírito das medidas excepcionais que tempos excepcionais exigem, soluções para não deixar, em caso algum, que estas sanções fiquem por aplicar. É manifestamente uma questão de honra. E regressar à honra é ainda mais urgente do que regressar aos mercados, pois sem ela, eles não nos valem de nada.

Agora, oiçam a bófia

por Zé Pedro Silva, em 07.03.14

Foi uma grande manifestação de descontentamento, mas em que os polícias não deixaram de ser polícias. "Estava tudo combinado" - dizem os mais inteligentes, que nunca se deixam enganar. Talvez estivesse, mas eu julgo que é costume os organizadores das manifestações combinarem as coisas com a polícia. Não sou especialista em manifestações, mas creio que há sempre um planeamento também em matéria de segurança.

No caso de ontem, em que os manifestantes eram polícias, mais se justifica uma articulação forte. Mas, mesmo assim, as coisas podem não correr como programado, como não correram noutras situações, em que também havia um programa de festas.

Mas os polícias respeitaram a profissão. Não foram mais brandos com eles próprios. Também vi ontem quem dissesse que se não fosse a polícia a manifestar-se, já estava tudo a comer. É um aproveitamento político puro da situação. A polícia destacou para esta manifestação um arsenal que dava para tomar Espanha de assalto e penso que ninguém tem dúvidas de que se a situação se descontrolasse, havia carga policial.

Pela minha parte, porém, continuo a achar que uma greve às multas ia muito mais rápida e certeiramente ao coração do poder político, mas eu não sou da polícia. E muito menos do sindicato.

Seja como for, a manifestação terminou. E correu como devia correr. Os polícias mostraram a sua indignação, sem arrancar uma única pedra do chão, sem incendiar nada. E eram 15 mil. Agora, oiçam a bófia. Não a desprezem. Não estamos a falar de funcionários de uma empresa de segurança que querem um aumento. Estamos da falar de homens e mulheres que são a primeira linha de defesa do país contra o crime, e que não têm sido respeitados.

Não deixem de ser polícias

por Zé Pedro Silva, em 06.03.14
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Sou dos que defendem que os polícias não são bem tratados em Portugal. Não é de agora, é de quase sempre. Remunerações baixas, falta de formação e péssimas condições de trabalho. A luta deles é, por isso, na minha opinião, perfeitamente justificada, sobretudo porque  a missão que desempenham tem uma responsabilidade acrescida. Eu logo à noite não vou correr atrás de um ladrão, não vou mandar parar um carro suspeito, não vou separar uma mulher do seu companheiro. Eu logo à noite vou estar a escrever neste mesmo computador e se alguém me tentar assaltar – ou se a minha mulher me mandar com uma loiça à cabeça – é a polícia que eu vou chamar.

Isto tem de ser respeitado. Esta missão de verdadeiro serviço público tem de ser recompensada. Recompensada pelo Estado, pelo poder político e pelos cidadãos.

Acontece que esta responsabilidade tem dois sentidos. Da mesma forma que defendo que os polícias devem ser tratados com especial deferência, pela natureza das suas funções, também entendo que a sua luta não pode ser igual à de outros profissionais, com menos responsabilidades no que à ordem pública diz respeito.

Esta ameaça à estabilidade que é alimentada por alguns polícias sempre que há manifestações – como hoje – é uma ofensa à profissão e que os fará perder um aliado importante no braço de ferro com o Estado: a sociedade.

Bem sei que os agricultores já destruíram leite para chamar a atenção do país para os problemas do sector, mas os polícias não podem pôr a cidade em pé de guerra, até porque há outras formas de luta, porventura mais sérias para o poder político. Uma greve de zelo, por exemplo. Uma greve permanente às multas e às diligências simples.

Sobre este assunto, encontro no Expresso algo absolutamente extraordinário. Diz uma agente especial da polícia que “eles têm o poder, mas nós somos o poder”. Creio que não há afirmação mais grave para um agente da autoridade e só há uma sanção possível para um profissional que afirma tal coisa.

A afirmação pode ser ingénua e até ignorante, mas assim como as pessoas não podem invocar o desconhecimento das leis – e os polícias sabem bem disto – muito menos os polícias podem demonstrar o desconhecimento não só das leis mas dos princípios mais básicos de um Estado de Direito democrático.

Compreendo, respeito e apoio a luta dos polícias. Mas peço-lhes que não deixem de ser polícias.

[Imagem: Público, via Google Images]

Celebrámos há 24 anos um Acordo que vamos agora analisar

por Zé Pedro Silva, em 01.03.14

A ingovernabilidade de Portugal - já pública desde os tempos do império romano - é particularmente saliente quando se percebe que, por cá, nem conseguimos decidir que língua devemos falar. Estou a pensar, naturalmente, no Acordo Ortográfico.

Vamos começar pelo processo. O Acordo Ortográfico é de 1990. Entrou em vigor em 2009. Até 2015 decorre um período de transição. Estamos em 2014 e ainda se fala numa análise ao acordo, tendo em vista a sua suspensão ou revogação, com o Parlamento a querer atirar para o Governo essa responsabilidade.

Entretanto, há portugueses a escrever com uma determinada quantidade de letras, outros com menos. Ninguém sabe muito bem o que é que está certo ou o que é que está errado. A minha pergunta é: Considerando que o Acordo foi celebrado em 1990, será que não era já tempo de sabermos se queremos ou não esta lipoaspiração da língua?

Havendo tantas dúvidas, resolvia-se isto através de um referendo. Não tinha de ser um referendo ao domingo, todos a votar na escola. Não era preciso isso. Podíamos responder à questão, dentro de um prazo, no Portal das Finanças, por exemplo. Sim, porque o Estado já evoluiu imenso, sobretudo nas formas de me notificar e obrigar a pagar, mas para me pedir a opinião é que continuamos com um sistema que tem mais de um século.

Mas ao menos resolvia-se isto. E se ganhasse o sim ao Acordo - tenho as maiores dúvidas - juro que arrumava os pês e os cês na arrecadação, usando-os só muito raramente, em ocasiões especiais. Mas se ganhasse o não, então revogava-se o dito cujo, pedia-se muitas desculpas aos CPLP's por toda esta maçada, e continuávamos com o português.

É que entretanto, não sei se já deram conta disso, mas temos uma geração novinha em folha que se está nas tintas para o português velho e para o português novo, dialogando por siglas. Ou seja, por mais vanguardista que o Acordo de 90 fosse, está mais ultrapassado que a dactilografia.

Não é que este assunto seja assim muito relevante, porque entendemo-nos todos e essa é a função da linguagem, mas creio que a dificuldade em tomar uma decisão é sintomática. E coisas a meio ou obras de Santa Engrácia, é o que mais temos. Já não é a primeira vez que aqui refiro o nosso Palácio Nacional de Ajuda, que embora pareça inteiro, ficou a meio. E tal não seria grave, se não continuasse a meio. Será que não podíamos ter acabado de fazer o palácio? Não, porque já naquele tempo faltou dinheiro e então agora nem se fala. Mas então, será que não se podia dar por concluído o palácio por ali e arranjar a fachada? Como é que continuamos com um monumento daqueles naquele estado, que parece embargado? E nem vergonha temos, porque é ali que se realizam as maiores recepções e os mais alarves banquetes.

Duvido que nunca nenhum Chefe de Estado ou de Governo tenha perguntado porque é que o palácio ficou por ali. E pagava para ver os nossos a explicar que já faz dois séculos que nos faltou a massa.

Voltando ao tema que nos trouxe aqui e para colocarmos em perspectiva a cronologia, quando celebrámos o Acordo Ortográfico que ainda não sabemos se queremos, em primeiro lugar no top estava Hold On, de Wilson Phillips. Mas como prefiro a que ficou em segundo no top, é essa que publico:

Duas homenagens e uma descoberta

por Zé Pedro Silva, em 18.11.13

 

Então e a Sara Sampaio, no desfile da Victoria's Secret? É um assunto da semana passada, mas que ainda abordamos a tempo. Sara Sampaio é uma estampa e metê-la num selo devia ser a última coisa que fazíamos antes de vender os CTT. Sim, porque os suecos puseram o Ibrahimovic nos seus selos, que é só mais uma machadada na correspondência tradicional, mas nós com a Sara Sampaio até nos esquecíamos de usar o e-mail.


- Se quiser pode enviar os documentos por e-mail.

- Está bem, está bem, mas eu prefiro enviar por carta. 


De resto, por estes dias, os portugueses podem estar muito satisfeitos com a sua representação no planeta, pelo menos no que respeita ao físico. De um lado a Sara Sampaio, do outro lado o Cristiano Ronaldo, que é o último modelo do Homem. Não sei se me faço entender. Vamos imaginar que a humanidade era a Ferrari. Ronaldo é o último modelo. O mais rápido, o mais potente, o mais ágil. E naturalmente também o mais caro. 

 

Resumindo, temos a miúda e temos o Ferrari. Mas... esperem lá. Também temos muitas dívidas e alguns problemas com a Justiça. Credo, acabo de descobrir que não passamos de playboys.

 

[Imagem: Via Google Images.]

500 mil é demais, vamos lá falar com ele?

por Zé Pedro Silva, em 17.11.13

Preciso da vossa atenção, porque isto é sério. Um funcionário da Segurança Social gastou quinhentos mil euros em telefonemas para concursos e sexofone durante um ano. A minha pergunta é: Como é que se gasta quinhentos mil euros em telefone durante um ano, sem que ninguém ponha um travão no primeiro mês? 

 

Vamos à matemática - seja o que Deus quiser, porque matemática não é nada fácil. Bom, quinhentos mil euros num ano são 41.666 euros por mês. São 1.893 euros por dia. São mais de 250 euros por hora. Mas o funcionário deve ter tido um mês de férias dos telefonemas. Logo, são 45.454 euros por mês. 2.066 por dia. 275 euros por hora em chamadas. 

 

Perante isto, já nem interessa saber como é que se consegue gastar este dinheiro em telefone, mas como é que se deixa gastar este dinheiro em telefone. Como é que a conta chegou ao meio milhão de euros? Será que ninguém reparou que havia um telefone que num mês tinha rebentado com 45 mil euros?

 

Quanto é que o Estado gasta em telefone, valha-nos Nossa Senhora!? Como é que 40 mil euros foram passando despercebidos? Isto é roda viva, com a breca. Isto é erário público a saque. Afinal, quanto pagam os contribuintes - já não falo só do maluco que liga para os concursos e faz amor com telefonistas - mas em todas as chamadas "paralelas"? Isto já nem é de doidos. Porque os doidos, assistindo a isto, ficavam bons.

 

Mas atenção, porque se eu fosse o maluco, metia uma acção contra o Estado. Sim, porque ele só pode ser maluco e o Estado é que foi incompetente, ao não zelar pelos seus bens e pelo coitado do maluco. Em qualquer circunstância, o maluco, logo no primeiro mês de desvario, devia ter ido para a desintoxicação. O Estado, perante tamanha falta de zelo, é absolutamente responsável. 

 

Maluco, se me estás a ler, processa o Estado. Indemnização? Pede um telefone, que é o melhor que fazes. (Agora que penso nisso, não me admirava nada que o juiz dissesse que sim senhor, o Estado tem de readmiti-lo e devolver-lhe o telefone, ressarcindo-o concomitantemente na medida dos prémios que deixou de ganhar enquanto esteve impedido de concorrer por causa deste quiproquó. Sim, isto é absolutamente plausível.) 

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