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Lóbi do Chá

Lóbi do Chá

Vamos ver se chove?

por Zé Pedro Silva, em 16.01.14

No fundo, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera manda-nos ir ver se chove. Digo isto porque, por um lado, há alertas de muito mau tempo, incluindo chuva grossa, mas por outro, a página na internet do Instituto fala em chuveca, no máximo chuvica. E o sol até espreita. Ou será que não? Não sabemos. A dúvida é mesmo essa. A partir do momento em que há todas as previsões, menos calor tropical, tudo pode acontecer. Por isso temos de estar atentos. No fundo, o que o instituto de meteorologia nos diz é "vejam vocês, olhem que esta, hein". 

Pode ser deselegante, mas há aqui uma componente de suspense gerada no país que não é despicienda. Enquanto espanhóis, franceses, alemães, suecos, italianos, norte-americanos, russos e chineses, por exemplo, sabem mais ou menos o tempo que vai estar, nós em Portugal acordamos e "tantanranran! então, está a chover ou um sol do caraças?". Lentamente, abeiramo-nos da janela, devagarinho, com aquela excitação das crianças no dia de Natal, abrimos as portadas ou os estores, devagarinho, devagarinho... atenção, parece-me estar cinzento, calma, um raio de sol, não, sou eu que ainda estou com os olhos sensíveis, vamos lá ver... "Oh... está a chover! Sacanas da meteorologia, enganaram-me outra vez. Ia jurar que não chovia. Mas assim, sem dúvida, tem mais piada."

Também se pode dar o caso do instituto de meteorologia andar um bocado bipolar. Tanto que até mudou de nome, recentemente. E então, mesmo quando confrontado com terríveis superfícies frontais, conclui que vai estar um lindo dia, revendo horas mais tarde a sua previsão para "alerta encarnado", depois lá toma os comprimidos e diz que vai estar só um bocadinho nublado. 

Uma terceira hipótese é estarmos perante o princípio basilar de todos os jogos de azar: a casa ganha sempre. Ao dizer que chove e que não chove, a casa - que é o instituto de meteorologia - ganha sempre. 

Mas enfim, vamos lá aproveitar todo este suspense e lançar um jogo. Esta sexta-feira, por exemplo. Temos uma previsão que dá conta de grande instabilidade, alertas máximos junto à costa. Muita precipitação. No entanto, na página do Instituto o dia estará assim-assim. Ora, vamos lá... Apostas?

Não vale ir à aplicação para telemóveis do Instituto. E digo que não vale, não porque seja batota, mas porque ficam ainda mais baralhados. É que a app anda assim como o tempo. Fraquinha. Falta-lhe muita informação. Não consegue reconhecer onde eu estou, por exemplo, algo que até os angry birds sabem fazer. Reparem bem, acabo de ligar a app e encontro a seguinte informação: "Não foi encontrada informação para a sua localização: Estoril". Quem me manda a mim vir viver para as montanhas do Afeganistão, não é?

A verdade é que qualquer app meteorológica, mesmo aquelas feitas por programadores que nem sabiam da existência do continente europeu, têm muito mais informação e informação muito mais rigorosa. Uso uma do Yahoo que não só já descobriu o Estoril - chegou cá antes dos portugueses - como decora as previsões com imagens belíssimas da região. Mas pronto, nem se pedia as imagens. Era só mesmo o tempo. 

Como se não bastasse a falta de informação, a app do Instituto consegue dar um grande destaque à área de sismos, que é justamente a coisa menos previsível com que o Instituto Português do Mar e da Atmosfera trabalha. Resta, aliás, descobrir a utilidade de ter informação sobre sismos no telemóvel. Não sendo possível prevê-los, resta-nos então esperar que, se tudo desabar, temos sempre hipótese de ir à app do IPMA confirmar que foi um sismo. "Não há dúvida. Vim parar ao rés-do-chão coberto de estuque porque ocorreu um sismo. Está aqui, na app do IPMA, vejam."

Claro que para isto funcionar, era preciso as antenas das operadoras de telecomunicações permanecerem de pé. E o próprio Instituto Português do Mar e da Atmosfera também. Todavia, mesmo nestas condições perfeitas, creio que não seria de esperar que o Instituto concluísse imediatamente que se tratava de um sismo. Primeiro diria que foi só o camião do lixo. 

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